3.11.05

Uma noite mal dormida

Depois da "cruz no quadrado" recebi recados e encomendas, como se eu fosse figura importante, com influências à esquerda e à direita e capacidades inauditas - tudo porque me assumi como pessoa preocupada e, pelos vistos, nem todos os meus concidadãos se regem pela mesma cartilha; isto é: as gentes do meu país estão-se nas tintas, quem vier que venha por bem, não importa que seja alto, baixo, gordo ou magro, que perceba de economia ou tenha uma "concepção de democracia pouco estruturada", mas pronto, precisamos de um presidente, vamos lá para o arraial, e que venham os zés-pereiras para animar a festa!
Afinal, quem anda com pensamentos obtusos sou eu, porque me preocupo, e isso não vai acrescentar mais valias para a minha reforma (gosto imenso deste termo: mais valias, porque é utilizado vezes sem conta pelo meu presidente de Junta, homem sagaz, com cultura acima da média, enfim.... está sempre a dizer coisas, como a loira das anedotas...), portanto tenho de arrepiar caminho e enfileirar no rebanho, com este ou aquele pastor, tanto faz...
Estava eu com esta retemperada ideia , olhos semi cerrados, três da manhã, cobertor até ao pescoço aconchegado, e... toca o telefone!!! Como tenho nervoso miudinho, fiquei irritado com a desfaçatez da pessoa que não respeita os horários de quem tem madrugadas de segunda a segunda, mas atendi: era o nosso primeiro!
Os cumprimentos habituais, eu ensonado, meio chateado, ele nem por isso.
- Então, a que devo a honra deste incómodo?
- Soube da sua preocupação, e como também me preocupo com as cruzes, quero convidá-lo para integrar a procissão - disse o nosso pimeiro.
- Procissão? Mas que procissão? - perguntei, como se eu fosse o meu presidente de Junta, sempre interessado pelas coisas lá da terra.
- Camarada, então não sabe que hoje é dia de visitar os cemitérios? Ando preocupado, etc e tal...
Pronto, só me faltava mais esta preocupação - pensei eu, calado!
Procissões, cruzes....funerais...
....
Acordei cedo. Não recordo os sonhos de uma noite mal dormida.

4 comentários:

Um outro olhar disse...

às vezes mais vale não recordar os sonhos, ....assim começamos sem a arrelia de um mau sonho....

Anónimo disse...

se tivesses sonhos light em tons de blue nada disso acontecia.

papoila disse...

Espero que esta noite não haja insónias....e que o dia tenha sido muito feliz...aqui vai este poema a propósito da data de hoje.
Fraternalmente




Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a.olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Alvaro de Campos

Anónimo disse...

Fez-me rir
esses sonhos são bons, mas quando acordamos para a realidade, ...pufff apagou-se e apenas ficou uma ténue e fugaz lembrança, penso que para viver é preciso sonhar, especialmente saber sonhar, quando não se tem isto na nossa vida, não temos rumo nem directrizes no caminho que seguimos, pois não temos porque lutar.
um outro olhar