12.1.07

A propósito do Natal...

"Coroa de espinhos"
À "Akakia Mimosa"
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As margens do rio que corre aos pés da minha aldeia serrana, enfeitam-se de flores amarelas mal a Primavera acorda de meses de sono revigorante.
De menino lhe soube o enfeite e o aroma, perto do Urtigal, mas nem precisava de percorrer os caminhos enviesados que ainda nos levam àquele pedaço de paraíso, porque à porta da minha casa, do outro lado da rua, o panorama é exactamente igual, sobretudo agora, com a quinta do Chiado votada ao abandono, a Mimosa encontrou terra fértil e cresce sem rei nem roque. Selvagens ou não, pouco me importa, gosto daqueles cachos de um amarelo vivo, e só eu sei como me atraem no tempo próprio; depois, sim, as árvores desfeiam no tom verde-escuro e não lhes dou atenção. A Mimosa, pelo que sei, tem no Homem um inimigo acérrimo, e não é para menos: ela escorre por montes e vales, invade propriedades menos cuidadas, e se não houver tento, é bem capaz de, ilegitimamente, fecundar terra de cultivo.
Portanto, o Homem, no seu estimado interesse, mata-a mal começa a crescer aqui e ali, a medo, com duas folhinhas rendilhadas à procura do Sol que as fará crescidas na direcção das estrelas. Uma das variedades da família das Acácias, oriunda da Austrália, pelo que dizem os entendidos em Botânica, a Mimosa que conheço desde sempre, a dada altura passou a fazer parte da minha vida pela simbologia que trouxe ao imaginário dos rituais Maçónicos, com um deles, segundo a lenda, eternamente ligado à morte do Mestre Hiram Abif.
Sem mais pormenores que não vêm a propósito, fica, pelo menos, a assunção daquilo que sou, para que se entenda que há conhecimento mais lato…
Na busca do que é justo e perfeito, fiz da expressão grega Akakia código de namoro, visto ser usada (a expressão) para definir qualidade moral, inocência e pureza de vida, e juntei-lhe a portuguesa Mimosa para reforçar a sensibilidade e a ternura do encantamento, como também é a festa sempre anunciada do nascimento de Jesus - em si mesmo um acto de Amor, intenso e unânime. A criança que "está para nascer" vai ter a sua existência nefastamente ligada a uma das seiscentas espécies existentes, a acácia espinhosa, segundo alguns historiadores, que acreditam ter sido a coroa de espinhos com que os romanos coroaram Cristo antes da sua morte, feita de um ramo desta árvore, considerada sagrada pelos egípcios e outros povos.
A Bíblia é, aliás, rica em alusões à madeira da acácia; por ser dura e duradoura talvez tenha servido para construir a Arca (de Noé) e a Mesa da Última Ceia de Cristo… Li bastante sobre o tema, daí a liberdade com que me arrogo para especular: sendo a acácia considerada árvore sagrada, como interpretar então o gesto dos soldados romanos em relação a Cristo? Um acto de crueldade, de sentido burlesco, ou será que alguém, conhecedor do simbologia da acácia, induziu a soldadesca a usar este tipo de ornamento? A coroa de espinhos foi colocada na cabeça de Jesus com a intenção de fazer troça, como a Igreja Católica salienta? Esta relação entre a acácia espinhosa e Jesus Cristo talvez tivesse mais sentido lá para Abril, a propósito da Páscoa.
Mas se a Ressurreição é a festa do "renascimento" de Jesus, não é de todo descabido associar "o nascimento e a morte do Rei dos Judeus" num texto de jornal, que nem croniqueta é – apenas um devaneio, a que me propus. Agora, o que importa é o tom de festa pela alegria do nascimento de Jesus Cristo e não repetir o que se julga saber sobre o seu prematuro desaparecimento do mundo dos vivos, para que pudesse ser cumprido o desígnio de Deus - o Supremo Arquitecto do Universo - de acordo com as Escrituras. Entre hossanas e cânticos pagãos, o Natal, sem termos muito bem a consciência como isso é possível, é, na sua essência, um tempo de paz e fraternidade que nos toca de perto, mesmo aos não crentes na História de um menino que, pela sua conduta, revolucionou a Humanidade.
A interpretação simbólica e filosófica da Acácia, na Maçonaria, lembra o lado espiritual que existe dentro de nós, que jamais pode morrer - daí esta associação de ideias e ideais, face aos "mistérios", onde me revejo sem ambiguidades. Quanto às flores com que me deleito, espero pelo seu "nascimento", lá para Março

6 comentários:

josesr disse...

A simbolica da Acácia não sendo inesgotavel é seguramente tema para muitas e diversas dissertações.

Espero poder continuar a ler algumas aqui.

o alquimista disse...

Fabuloso texto, começo a ficar preso ao teu espaço...

Pascoalita disse...

Posso só deixar um abraço? Tou de passagem, sem tempo por agora. Voltarei mais tarde para dar uma espiadinha mais demorada.
Boa noiteeeeeee

Pascoalita disse...

Óptimo e interessante texto! Aprendi mais um pouco sobre a mimosa, já que para além das lindas e cheirosas flores que exibe, há muito que lhe descobri, da pior forma, o seu lado negativo e quão nefasto pode ser, se não interviermos e a deixarmos "estender-se" pelos campos, a seu bel prazer.
Depois da aprendizagem qto à origem e não só, e duma reflexão sobre a motivação do seu uso na coroa de espinhos, tb aguardo as suas lindas flores ... já não falta muito :-)
Gostei muito do texto. Se me permite, voltarei para ler mais um pouco do muito que por aqui tem.

Gilinho disse...

Parabéns pela qualidade e conteúdo do texto, que contribuiu sobre maneira para ampliar os conhecimentos. Voltarei outras vezes.
Aceite um trp.: e frat.: abraço.

Acácia de Cristal disse...

Que bela prancha...
já não passava por aqui há tantos sois...mas valeu a pena...parabens pelo seu talento para desenhar com palavras tão harmonioso quadro simbólico.
Justo e Perfeito.
Taf