6.2.07

Fernando Vale e Miguel Torga "de braço dado"


Foi necessário deslocar-me às instalações da Santa Casa da Misericórdia de Arganil, o que nunca fizera antes, apesar das inúmeras viagens que, em tempos, me proporcionaram conhecimento profundo da Vila e das pessoas – de algumas pessoas – com quem partilhei ensinamentos e experiências inesquecíveis. O tempo de espera para uma conversa com figura proeminente da Medicina foi suficiente para um pequeno passeio pelas instalações da Instituição; vi obra recente, alterações arquitectónicas que redimensionaram espaços, e até o busto do Dr. Fernando Vale mudou de sítio, embora se mantenha visível em local digno. Não fui adiante, porque a memória "disse" para ficar e olhar – olhei!
O tempo de meditação foi curto, mas a imagem daquela figura que conheci de perto e me honrou com amizade fraterna, acompanhou-me pelo resto da tarde.
À esquerda de quem entra no Hospital, continua exposto o consultório de outro ilustre cidadão, de seu nome Adolfo Rocha, médico dentista de outros tempos, de quem a História pouco diz, mas eleva às alturas do sublime quando acrescenta o pseudónimo de Miguel Torga. Outra pausa na viagem e deixei-me ficar, mirando com minúcia os objectos.
"Desfiz-me do consultório. Mil circunstâncias adversas conjugaram-se nesse sentido. E adeus meu velho reduto onde durante tantos anos lutei como homem, médico e poeta. Ofereci o material cirúrgico ao Hospital da Misericórdia (de Arganil) onde durante anos operei, e o mobiliário à Junta de Freguesia de S. Martinho" – escreveu Torga em Junho de 1992
Fernando Vale e Miguel Torga - ali, quase de "braço dado"…
Do que conheço da obra do Torga, partilho com a "minha verdade" a sua opinião sobre o Homem, que diz ser "…por desgraça, uma solidão: nascemos sós, vivemos sós e morremos sós"! Revejo-me nesta frase e numa outra onde retrata o beirão (que também sou, de peito aberto aos ventos que sopram da serra do Açor), como teimoso e cabeçudo!
De Fernando Vale recordo anos, (apesar de poucos - é sempre pouco o tempo que os Mestres nos concedem!), e momentos passados na sua casa de Coja, onde eu (e os outros…), de pé e à ordem, atentamente, aprendíamos os segredos da palavra perdida, e desenvolvíamos o espírito de modo a construirmos, cada um por si, o templo interior da tolerância e da fraternidade. Por vezes, na sala, a meio da conversa, se havia incertezas, o Mestre, delicadamente, pedia: "…por favor, naquela prateleira, não se importa de me trazer o livro (…)" – e a dúvida morria naquele instante!
Por ali, tudo parecia justo e perfeito, cada coisa no seu lugar, cada lugar para cada coisa, que tanto podia ser um livro, jornais, documentos - um autêntico acervo de "sabedoria com alma".Imaginei-me, vezes sem conta, sentadado na cadeira usada por Miguel Torga, Moura Pinto, Edmundo Pedro, Soares…
Lá fora, no pátio interior, a videira que Torga plantou em 1954, continuava viçosa…
O tempo de espera, nas instalações da Santa Casa da Misericórdia, chegara ao fim. Nunca como naquele dia, que me lembre, o atraso de um médico foi tão "abençoado"!
De regresso a casa, remexi nas coisas que guardo com estima, folheei e li opúsculos de Carlos Teixeira e Luís Vale, "perdi-me" com os desenhos do Alberto Péssimo e deliciei-me com a poesia de António Arnault. Como dizia o Mestre, citando Dostoievski, só a beleza salvará o mundo…
Depois, tive o atrevimento de me abalançar a esta croniqueta.

9 comentários:

margarida disse...

Que bom ouvir-te outra vez :-)

Silvia disse...

Visitei uma vez as instlações da Stª casa da Mesiricórdia em Arganil. Uma viagem louca pelas Santas Casas do norte que tinham acolhido refugiados do Kosovo.

Célia disse...

Amigo, como está?? Há mto que não o encontro online! Desejo que esteja td bem. Não pude deixar de me deliciar ao ler este seu ultimo post. Concordo com o nosso grande Miguel Torga."Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós. Ainda que na multidão podemos estar sós. sós podemos ser tudo ou não ser nada. O mundo pode caber na nossa mão! Tive a sorte de ter sido aluna da Dra Ana Paula Arnaut, filha do seu amigo António Arnaut! efecetivamente, o mundo é pequeno! Um abraço imenso até breve

Tozé Franco disse...

Fernando Vale e Miguel Torga duas personalidades fantásticas.
Vou linkar o blogue.
Um abraço.

o alquimista disse...

Corre a agua nasce a vida no embalo do tempo... Que seja sempre dia, nunca acabe o sentimento...

Puros sentimentos, lindo domingo para ti...
Abraço

Rui @t Blog disse...

Excelente post, no conteúdo e na abordagem.

TAF

MAC disse...

RITUAL, disse:

" À esquerda de quem entra no Hospital, continua exposto o consultório de outro ilustre cidadão, de seu nome Adolfo Rocha, médico dentista de outros tempos, de quem a História pouco diz, mas eleva às alturas do sublime quando acrescenta o pseudónimo de Miguel Torga."

Ou eu ando enganado há muitos anos ou então o senhor atribuiu ao médico Adolfo Rocha uma especialidade médica que ele nunca possuiu: dentista. Para mim, que sou um apaixonado por Miguel Torga, este era médico otorrinolaringologista. Não lhe fica nada mal proceder à correcção...
MAC

Carlos A.P.Ramos disse...

De facto, não me fica nada mal proceder à correcção - está feita! O seu comentário, MAC, basta para me penitenciar.Grato...

MAC disse...

Obrigado, por aceitar o reparo sem se ofender. Porém, a correcção, ao contrário do que escreveu, ainda não foi feita. Esquecimento...?
Cumprimentos
MAC