9.8.07

Contagem decrescente


“…gasto”, talvez - aceito que já não corro

atrás de uma bola

como o fazia quando tenha vinte anos,

ou “fora de moda” para as “miúdas” de trinta,

ou mesmo dos quarenta,

e mais não digo…


Os filósofos da bica e alguns “entendidos da matéria”, entre duas “imperiais”, especulam de forma brejeira (sem necessidade, digo eu…) sobre a idade de cada conviva, e não é de admirar um “puto de quarenta” dizer a outro, na mesma faixa etária, que está a ficar “velho”, ou já lá mora, quando ela, a velhice, se faz anunciar com uma simples e fugaz enxaqueca, por exemplo, ou se determinado “jovem” assume cansaço físico depois de uma noite de pândega. (Há indícios bem mais aborrecidos, e desses quero distância, nem os “enuncio”).

Depois, há sempre um ou outro, de conversa mais séria na aparência (rosto fechado, voz timbrada, palavras eruditas…), que afirma ser a velhice coisa natural! Um deles chegou a encadear uma ladainha, que começou na concepção da vida e terminou…na “terceira idade”.

Na verdade, a contagem decrescente pode ser contabilizada a partir do momento da fecundação, mas imaginar uma criança daí a uns bons e largos anos, no tempo do ocaso da sua existência, não é ideia que se tenha, sobretudo quando os mais pequenos nos brindam com gestos de inocência e/ou palavras de excelsa ternura, deduções lógicas e inteligentes na curiosidade – momentos de espanto e admiração que guardamos na caixinha das memórias como autênticas relíquias.

A Margarida contou-me que o infante Guilherme só come peixe se este lhe aparecer no prato, inteiro, da cabeça ao rabo; de resto recusa-se a ingerir qualquer posta de “peixe mutilado”, que é como quem diz, na sua imaginação, retalhado aos pedaços, grandes ou pequenos. Mas do que o Guilherme não gosta mesmo nada é de “morangos mortos”! – nem mais nem menos gelados ou iogurtes onde apareçam bocadinhos daquele fruto.

Uma vez, um dos meus filhos, o Carlo, resolveu semear um caroço de laranja num dos vasos com plantas, que ornamentavam a entrada do prédio onde habitávamos; a sua maior preocupação era, no futuro, o crescimento da árvore e os frutos que haviam de nascer - certamente os vizinhos iriam “roubar as suas laranjas” , e isso não admitia!...

Enfim, “estórias” que Fernando Pessoa por certo quis retratar de forma sublime quando escreveu que o “melhor do mundo são as crianças”!

“Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças…”!

Este “devaneio”, não tem nada a ver com o tema da croniqueta – ou terá? Adiante.

Estou em acreditar, por completo, em algumas das teorias sobre a velhice, mas a Catarina, há pouco, “baralhou-me” com o que aprendeu na Universidade.

Simples: diz-se que uma pessoa é idosa (velha…) a partir dos sessenta e cinco, e muito idosa (demasiado velha…) depois dos oitenta! O meu dicionário, porém, é mais pragmático: velho, significa muito avançado em idade, antigo, que já não está em uso; fora de moda; antiquado; muito usado, gasto; homem de idade avançada, ancião. Sobre a pessoa idosa: que tem bastante idade; velho; senil!

Senil?!

Uff…tento dar a volta ao texto e “localizar-me” nas definições de forma airosa, gentil e simpática!!!

Aqui para nós, não me revejo em nenhuma das características enunciadas; “gasto”, talvez - aceito que já não corro atrás de uma bola como o fazia quando tenha vinte anos, ou “fora de moda” para as “miúdas de trinta, ou mesmo dos quarenta, e mais não digo…

Como se compreenderá, sou suspeito numa auto análise, assim, deste jeito, como quem se confessa ao prior da freguesia, mas espero que me dêem o benefício da dúvida, embora reconheça que, um dia destes, depois de estar horas à espera do médico de família, no Centro de Saúde - eu e mais umas vinte pessoas, com os seus achaques, algumas com idade inferior à minha, cansadas e desgastadas pelo trabalho árduo do campo – senti-me velho por dentro! Pensamento estranho porque sempre valorizei muito mais o “espírito” eternamente jovem (pensava eu!) do que o “invólucro” com que cubro os ossos.

Enfim, “isto” tinha de acontecer, mais dia, menos dia – só falta chegar a idade da reforma, mas ainda há imenso tempo para me dedicar à delícia de ver os netos crescerem no "dolce far niente".

3 comentários:

Rui Marques disse...

Passei por cá só para deixar um abraço, e um convite ao meu (nosso) novo blog - pretexto para um álbum de família ao dispor de quem o souber ler e apreciar.

Aquele abraço.

Serenidade disse...

Passei para dizer o que já lhe tinha dito... não há velhos, há pessoas idosas...

E diga-se de passagem que se conseguirmos cultivar bem o espirito, o corpo envelhe-se de forma mais lenta...

è preciso é força de vontade para não notarmos o passar dos anos...

Aquele beijo!

Maia disse...

Acha que sim, Tio, na Vida desde que temos amigos nunca está-mos "fora de moda". Um grande abraço com saudade...