2.5.07

"Pavarotti" de penas

Forçado ao repouso, procuro cumprir com algum rigor a abstinência ao trabalho e às conversas longas; a dieta alimentar é sensaborona, mas o que mais me cansa, é estar de costas direitas, à espera que o tempo passe. A inércia nunca fez parte dos meus hábitos, mas como a ordem veio de cima, do médico que me assistiu nos HUC, faço-lhe a vontade, na esperança, como disse, de continuar por cá por mais uns tempos – sempre acontecem coisas novas, se não houver sabedoria, que haja conhecimento!

Na aldeia onde me "refugiei", o tempo parece mais vagaroso, por isso deixo o olhar perder-se no horizonte, visto do meu quintal: mimosas "perna-longas" de um lado, casas velhas desabitadas à minha frente, do outro lado, lá longe, um monte coberto de pinheiros, e atrás de mim a sombra da casa resguarda-me do calor primaveril.

No relvado, um melro anda aos saltinhos e em silêncio (e se é bonito o seu cantar!); faço um pequeno gesto, levanta voo e esconde-se na selva que invadiu o quintal do vizinho. Às mimosas, juntaram-se as silvas e arbustos que não conheço, cobrindo por completo as oliveiras. O melro deve ter o ninho nesta mata impenetrável…

Os pesticidas que os meus conterrâneos usam nos ataques às pragas e ervas daninhas (uma boa infusão de urtigas resolvia, não é "mestre" Zeferino?) afugentaram os pintassilgos que, noutros tempos, festejavam a Primavera com acordes de uma sinfonia, em homenagem à mãe Natureza. Uma vez, aqui perto, descobri um ninho destes passarinhos. Espreitei e vi três ovinhos de cor creme, pintalgados de cinzento. Dei tempo ao tempo e acompanhei a eclosão da ninhada.

Quando o vizinho (habituado a ir "aos ninhos" desde miúdo, coisa que nunca fiz…) entendeu que tinha chegado a hora da transferência, fez-se a mudança para uma gaiola, na esperança de que os pais, segundo ele, os alimentassem; estes, coitados, não gostaram que tivéssemos interferido na educação dos filhotes, por isso manifestaram-se de forma "ruidosa", sem se aproximarem da prisão, o que me deixou preocupado e, mais do que isso, bastante incomodado. Nem uma hora durou o martírio, porque, com paciência e jeito, devolvi os bebés à "casa" onde nasceram, felizmente sem consequências graves. Tempos depois, a família estava junta nos ramos da oliveira. Decidi que não voltaria a cercear a liberdade a nenhum animal que estivesse habituado à liberdade.

Para que a gaiola de grades brancas não ficasse vazia, comprei um canário de cor amarela – um autêntico tenor pela qualidade e pujança do canto! A partir de então, esta espécie de ave canora passou a fazer parte do meu mundo de sons. Agora, são dois os cantores que tenho na sala, cada um na sua gaiola. O mais atrevido é jovem e irrequieto; nunca lhe dei nome de gente, o que não aconteceu com o "Pavarotti", que habita a gaiola do rés-do-chão – baptizado com propósito pela Acácia à saída da loja da especialidade. Meses depois, a Acácia decidiu que lá em casa dois gatos não eram, de facto, a melhor companhia para o cantor de penas, ainda que este estivesse a salvo das arremetidas dos felinos, e pediu-me para o trazer para o jardim de entrada do meu local de trabalho.

As vidas do "Pavarotti" e do seu companheiro tenor eram tranquilas, pareciam "felizes" no cativeiro e as pessoas deliciavam-se com as "cantigas ao desafio". Um dia, a Acácia veio com uma novidade afiada na ponta da língua e quebrou em estilhaços o laço de cristal Lalique que prendia os sentimentos de ambos. Nessa hora, a sorte do "Pavarotti" ficou traçada: não voltaria à varanda do terceiro andar!

Agora, canta só para mim.

O Melro, esse insiste nos saltinhos, levantou vôo e leva qualquer coisa no bico. No meio daquela selva, quem se atreve a procurar o ninho?

6 comentários:

Tozé Franco disse...

Espero que a recuperação seja rápida. O descanso pelo menos penso estar a ser bom.
Um abraço.

Fuser disse...

deixo-lhe um convite.

um bom fim de semana.
aparece.

fuser

Anónimo disse...

Olá,sou a Celeste do facebox.Foi com muita pena k vi k não estavas mais lá,agora percebo o porquê.Desejo-te uma rápida convalesçensa e que tudo corra pelo melhor,são os votos sinceros desta tua amiga Celeste.Gostei muito do teu blog.

Serenidade disse...

Também eu gostava de ter um ninho impenetrável onde ninguem fosse capaz de se aventurar a penetrá-lo, um lugar só meu...
vou regressar ao meu choro em ninho aberto a toda a espécie de abutres...
as melhoras...

margarida disse...

A patir de quando podes aceitar visitas com silêncios daqueles de ouvir os pássaros?

para ela, sou a Mãe, para ele sou já a Cota :( disse...

Todas as experiências contam, mas algumas dão-nos uma nova "capacidade de ver" e até de sentir... já viste como tens um outro olhar?

beijinhos grandes
a tua filhota