No aconchego de uma boa conversa,em ambiente a condizer, talvez poesia, música, artesanato ...
Em 1999 ganhou corpo e nome, e dele fiz morada, rumo e promessa. Era um sonho habitável, onde a vida cabia inteira: o riso solto, os dias longos, a certeza ingénua de que o tempo obedeceria à vontade do coração.Durante anos caminhei dentro dele, sem pressa, como quem sabe que chegou ao lugar certo. Cada gesto tinha sentido, cada passo deixava marca.
Mas a vida, que nunca pede licença, mudou o curso do rio em 2008. O brilho recolheu-se, como o sol quando decide esconder-se atrás de nuvens densas, e a existência ficou suspensa num intervalo sem nome. Fiquei preso por um fio — fino, quase invisível — tecido pela Ciência, esse engenho humano que desafia o destino e negocia com o impossível.
O corpo, cansado de tantas batalhas silenciosas, aprendeu a ficar. A permanecer. Foi reprogramado para se manter de pé, mesmo quando a alma pesava mais do que a carne. Dentro dele, a alma resistia, vigilante, recusando-se a abandonar o sonho. Não o sonho intacto, mas o que sobrevivera.
Desde então, vivo de outra maneira. O tempo deixou de correr; passou a respirar. O sonho recolheu-se às memórias, onde permanece desperto. Habita os sons guardados com ternura, as imagens que o amor selou para sempre — instantes pequenos, luminosos, invencíveis.
Há dias em que preciso regressar. E então acontece o milagre: as memórias erguem-se, ressuscitam, ganham asas e voam. Aprendi que nem tudo o que a vida interrompe se apaga. As belezas da minha vida são eternas — e só essas. Não envelhecem, não adoecem, não se rendem. Acompanham-me, silenciosas e fiéis, até ao dia da derradeira viagem ao desconhecido.

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