9.7.08

Cegos, surdos e mudos


Esta manhã, já avançada nas horas, li os títulos da Imprensa nacional, cumprindo um dos rituais diários.
Quando me agradam as notícias positivas, “entro” e leio; se me deixam curioso as parangonas deprimentes, “entro” e leio, mas se os títulos são inócuos, também “entro” e leio, nunca fiando, é que nem tudo o que parece é…
A facilidade com que dou a volta ao país, pela leitura, só é possível, é bom de ver, porque tenho Internet à distância de um click – uma maravilha da ciência que não dispenso.
Quando se tem tempo para pensar devagar, como é o meu caso, as náuseas são mais do que muitas, face a tanta crise, despoletada pelo aumento do custo do petróleo – é o que dizem os especialistas, todos eles, sobretudo os políticos que, pelo facto de o serem, mesmo os mais incultos em matéria económica, arvoram-se em “opinadores” doutrinários, e nós caímos na esparrela, acreditamos, e cá vamos “cantando e rindo”…
Perante alguns desplantes de enorme arrogância cívica, o povo tem o direito de espernear, barafustar, refilar e pouco mais. Valha-nos isso, se possível para sempre – amén!
Adiante. O tempo por aqui, pelo meu sítio, vai sereno, o rio tem menos força na corrente, não tarda chegam os sedentos do sossego. As pessoas hão-de gozar férias, regadas com vinho e cerveja, cultivando a saudade com arrotos de bebedeiras e, depois, irão felizes porque ouviram a banda tocar ou deleitaram o olhar com as danças do folclore. Férias são férias!
E assim se hão-de passar os dias, nesta aparente calmaria, entremeada com lamentos de churrasco,”… porque isto está mau, cada vez pior, só se fala de crise, ninguém sabe onde vamos parar, a sardinha está caríssima, agora nem se pode cortar um pinheirinho para aquecer o Inverno sem ter que dar conhecimento às autoridades…” – tudo por causa do nemátodo (uma praga voadora que veio dizimar a nossa riqueza florestal) - e por aí fora…
Este é um esboço da região onde estou inserido, não me atrevo a escalpelizar os males das outras, vizinhas ou nem tanto, já bastam os nossos, ainda que algumas maleitas sejam comuns, como é o caso concreto de alguns líderes que governam o poder local - os tais que, num repente, ficam doutorados em toda a linha do conhecimento, graças ao cargo que exercem.
…É por isso que sempre “tive o sonho de ser”, no mínimo, autarca no meu sítio; bem tentei, mas o povo, soberano, achou que não era merecedor de tamanha honra, ofertando-me o lugar “pelos meus lindos olhos”. Já que não cursei escola de grau superior, ao menos, por essa via, bem podia ficar com a chancela de doutor ou “coronel”, à moda do sertão brasileiro de outros tempos, mas não – continuo sem poder dizer “coisas”, como o meu presidente de Junta… Ia a croniqueta desta quinzena muito direitinha pelos caminhos da seriedade, quando, num despiste, ao dar de ouvido na bonomia de certo amigo, mais ou menos a meio do texto, saltou as barreiras do bom senso dos primeiros parágrafos. Disse-me ele, através do Nokia, que o povo anda cego ou pior ainda: cego surdo e mudo! Verdade?
E veio com uma cantilena de ouvir lá para o ano que vem, perto das eleições, não agora, o povo está sereno, tudo está sereno, como o “meu rio”, que se apresta para, no Verão, que há-de ser de calor africano, enxaguar as miudezas dos sedentos do sossego do sítio onde ouço o canto dos melros, rolas e um ou outro cuco, lá para os lados da Quinta do Barbeiro.

1 comentário:

Anónimo disse...

Como sempre, bela crônica...atemporal...beijos