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21 de janeiro de 2012

O senhor Álvaro

O senhor Álvaro, delicado no gosto, escolheu o pastel de Belém para afirmar sem pompa o seu (dele) contributo para o enriquecimento do país pela via do pastel. De Ministro pouco visto, num ápice popularizou a sua imagem, não por obra de vulto, mas pela ideia luminosa de transformar a doce iguaria num símbolo nacional, capaz de ombrear fora de portas com o vinho do Porto…
O senhor Álvaro foi sincero nas palavras quando sugeriu o pastel para embaixador do que de melhor (e mais doce!) se produz por cá. Desconheço se existe confraria que represente a especialidade nos altos graus da doçaria; se estiver constituída, o senhor Álvaro deve ser entronizado num dos próximos capítulos…
O senhor Álvaro, não tarda, vai ter seguidores na ideia; depois do pastel, alguns doces conventuais devem estar à espreita de outro Ministro com ideias doces e preocupado com a situação económica do país, embora esteja em crer que o mais certo é surgir no horizonte uma ou outra confraria com sugestão mais robusta – da Chanfana ao Bucho, sem esquecer o Bacalhau, existem “ mais do que muitas” associações constituídas por gente de bons costumes, os “confrades”, que se manifestam sem segredos e vestem fardamentos de estilo – capaz de guerrear o mercado internacional.
O senhor Álvaro, um dia, vai ter direito a estátua junto aos Jerónimos, em Belém, e o governo que estiver em funções irá decretar “O Dia do Pastel”, 12 de Janeiro, feriado nacional, mesmo que seja necessário desistir de outra data histórica…
Se formos a votos, decido-me, pela “Feijoada à Transmontana” !

23 de dezembro de 2008

Que “espírito” de Natal?




Outro ano, mais um Natal e tudo do mesmo, como nos anos anteriores.
É uma época assaz complicada para todos nós, pelo facto de serem difíceis de conter os “assaltos” de que a nossa consciência é vítima, desde logo porque nos fica a dúvida da existência da própria consciência; se a não temos, também não podemos “avaliar as investidas”….
É por esta suspeita que me afoito a assumir alguma dose de cinismo-social-bacoco, confesso, nos tradicionais votos de “boas festas” dirigidos a pessoas que por uma qualquer razão, ou não, deixaram ser próximas na amizade, muitas vezes na consideração, outras merecedoras de repúdio, certamente inimigas pela prática de atos ou palavras.
A época é propícia ao negócio, sem dúvida, até das próprias consciências, mas não pode ser ocasião para alterarmos alguma coisa dos nossos propósitos na defesa dos valores morais.
Um exemplo: não pode existir  confusão entre a liberdade de pensamento e a ação consequente, sob pena de enfeitarmos o que se diz e o que se faz com cores berrantes. Obrigatório, digo eu, é interiorizar sentimentos – todos os sentimentos! – sem deixarmos de ser quem somos, perdoando e esquecendo pequenos nadas durante o ano inteiro e não fazer
disso um propósito de vida, simplesmente porque é Natal!
Assumido um defeito de que não me orgulho, de todo, acredito que tenho uma consciência e, assim sendo, não fico indiferente ao espírito do Natal que brilha no mundo das crianças que, como se sabe, não é, nunca foi, o universo dos mais crescidos. Até a mentirinha do pai natal, para as crianças, “tem sentido”, ainda que marota no exemplo da própria mentira; depois, mais tarde, quando entram na idade da razão, condenamo-las quando usam o embuste para conseguirem os seus objetivos, por mais “inocentes” que sejam...
Por certo haverá tréguas em algumas lutas e batalhas para que se comemore a data no sossego de uma bela comezaina. No dia seguinte, voltam os ódios, tiros, a violência desmedida e as palavras ofensivas, como se o Natal nunca tivesse existido e o descanso das armas fosse uma regra do evento cristão; sempre assim foi, porque havia de ser diferente este ano?
Aquela senhora que às suas custas passa o ano a distribuir alimentos aos pobres de Lisboa, no Natal tem menos ocupação, por que, disse ela na TV, neste período há muita gente a ter a mesma lembrança, mas só nestes dias, depois ela volta à missão a que se devota o ano inteiro; sempre assim foi, porque havia de ser diferente este ano?
Ah, falta referir a festa da família, de que todos (?) gostamos nesta quadra. O Natal é “isso”, sobretudo “isso”, acentuamos. É por “isso” que alguns velhinhos estão depositados nos lares e hospitais… à espera que seja Natal!!!
A hipocrisia tem um sorriso que atenua o peso da consciência, torna-a leve e “feliz”. Mas a dúvida persiste: 
- E quem a não tem?

30 de setembro de 2008

Da lousa ao "Magalhães"




Com a reabertura das escolas, há um novo ciclo na aprendizagem das coisas com que os jovens hão-de enfrentar o mundo – um enorme mercado onde (quase) tudo se compra. Por ora, a festa está para durar durante mais uns tempos porque a alegria de quem reencontra amigos e colegas de faixas etárias semelhantes é contagiante. O conhecimento virá depois, durante meses de cansaço intelectual até atingir a meta no próximo Verão.
Debruço-me com alguma nostalgia sobre as descobertas dos mais pequenos no 1º ciclo (ex escola primária); às novas matérias juntam-se as brincadeiras que fazem de cada intervalo um momento único: à falta do pião e das corridas dos “arcos”, inventam-se outros jogos, mas a bola e a “macaca” continuam a fazer parte da lista que todos soletrámos no tempo certo…
A ocupação dos “intervalos” das aulas acompanhou a evolução das mesmas, já não há o papaguear dos rios e afluentes, das linhas-férreas e ramais, e até “cantar a tabuada” caiu em desuso, para o bem e para o mal na aprendizagem das “contas”. A professora Georgina, por exemplo, levava tudo muito a sério, e ai de quem não tivesse na ponta da língua “quantos eram 9 x8”!
A “minha” escola, por onde passaram milhares de alunos, continua de pé: uma sala de aula de cada lado, e ao centro a residência dos professores, encimada por um varandim em ferro que servia de púlpito à mestra nos intervalos mais prolongados:
-Meninos, pouco barulho, já lá para dentro! E nós, claro, obedecíamos porque tínhamos nos ouvidos os sons da régua quando vinha lá do alto “descansar” nas palmas das nossas mãos…
As “contas” eram feitas na “pedra” (lousa) com um lápis da mesma matéria, e no fundo da sala havia um mapa de Portugal para onde nos dirigíamos quando a professora assim o entendia.”Ir ao mapa ou ao quadro” deixava os alunos com tremedeira nas pernas porque a professora Georgina fazia-se acompanhar por uma “vara da índia”…para apontar e “espantar a ignorância” das nossas cabeças.
Uma vez, na quarta classe, confundi os feitos heróicos de Vasco da Gama e Fernão de Magalhães; o castigo não se fez esperar como era moda, por isso deixei de “ver com bons olhos” estas duas figuras dos mares nunca dantes navegados. Passado meio século, eis que um deles, o “Magalhães”, passa a ser motivo de conversa em tudo quanto é sítio, só que desta vez não me apanhou desprevenido: tenho um Toshiba, de quem é “primo”, e agora já não confundo as aventuras dos dois mestres marinheiros – o Google está ao alcance de um “click” e a resposta vem de imediato!
Se a professora Georgina fosse viva, apesar de rezinga, a sua competência de mestre-escola estaria à altura de utilizar as novas tecnologias em benefício dos alunos – disso tenho a certeza! – e eu, quem sabe, teria ido além da Taprobana se tivesse um “Magalhães” à disposição…
Agora (como antes, mas de outra forma…) já não há desculpas para ir mais longe “ sem sair de casa”! Portanto, façam o favor de viajar na nova “caravela portuguesa” na companhia das vossas crianças, com estas ao leme.

2 de setembro de 2008

Emoções em Agosto



Em Agosto o “país entra em dormência” e eu fico um pouco indolente, confesso. Como desabafou o nosso olímpico Marco Fortes, “…cheguei à conclusão que de manhã só estou bem na caminha”, mas tenho de me fazer à vida com os cheiros e sabores de Verão, coisa que o Outono fará sumir rapidamente. O melhor é seguir adiante, “realisticamente falando”, sem demoras nas palavras desta croniqueta para uma espécie de balanço pessoal de duas ou três coisas a que assisti, lendo, no finado mês.
Palavras tolas quando os “fortes de espírito” dizem que um homem não chora. Mentira – eu sou homem a caminho do termo de validade e sempre chorei, desde que as circunstâncias em que isso acontece façam parte de alguma das viagens que realizo, de dentro para fora de mim, com emoção e sentimento à flor da pele.
A imagem do Nelson Évora no pódio, de ouro ao peito, perfilado, sorriso de felicidade e olhos postos na Bandeira Portuguesa, ”Heróis do mar, nobre Povo Nação valente…”, fez soltar umas quantas lágrimas…
Com a imagem do “anjo” que emprestou a imagem à voz da pequena Lin Miaoke na abertura dos Jogos, na belíssima “Ode à Pátria” (chinesa), aconteceu (quase) o mesmo porque me emocionei com a candura do sorriso da menina. Fez ”playback”, soube-se mais tarde! Qual é o mal? Todos os cantores praticam o truque em algum momento especial; no caso, a Lin, infelizmente, por causa do marketing da estética do belo, limitou-se ao “travesti” da voz da jovem Yang Peiyi, que de facto gravou o tema
”Playback e travesti”, neste caso, são quase, quase a mesma coisa, mas…

Em Agosto, na Madeira, Alberto J.J. mostrou descontentamento com a política nacional pela milésima vez, e numa espécie de charada carnavalesca aventou a possibilidade de apadrinhar um novo partido político; sugiro, de forma inocente, que o baptize na Catedral do Funchal com o seguinte nome: união nacional!
No concelho de Oliveira do Hospital imperou o sossego no poder, que esteve de férias, e até a oposição foi a banhos.
Sem necessitar de “carta de alforria” o CBS.com (http://www.correiodabeiraserra.com/) manteve-se no seu posto de forma virtual e foi dando conta do que mais importante se foi passando em Agosto.
Leiam-se as últimas sobre esgotos, ETARs e fossas sépticas; por cá, os ventos não trazem a maresia do mar da Figueira da Foz …
Como se vê, em Agosto, só emoções – até o casamento da Liliana, que é cá da casa. À saída da Igreja, ela e o Bruno vinham “lindérrimos”, vaidosos e felizes. Parabéns ao casalinho

5 de agosto de 2008

"Lulu", a raposa



La fontaine por certo não teria desdenhado juntar às suas fábulas a estória da raposinha que vem todos os dias – e à hora (quase) certa, mais minuto menos minuto! – “jantar” ao restaurante “Vale dos Amores”, perto de Fiais, na freguesia de Ervedal da Beira.
Se os “animais falassem”, seria curioso conhecer de “viva voz” o que vai na cabeça da raposinha para se entregar de “corpo e alma” à gentileza da sua presença, que já se tornou um hábito.
O proprietário do restaurante, Humberto Cerejeira, conta como tudo começou:
-“ Eu e a minha mulher, há uns quatro meses, começámos a notar que o saco do lixo que às vezes fica esquecido fora da cozinha aparecia rasgado. Pensávamos que era obra de algum cão que andasse por aí, de noite, mas um dia a minha esposa viu a raposa perto daqui e não fez nada para a assustar; então, o animal foi aparecendo, dávamos restos de carne, e ela acostumou-se a nós”.
O Humberto, carinhosamente, baptizou-a de “Lulu”.
No dia em que a reportagem do Correio da Beira Serra se deslocou ao Vale dos Amores, já a tarde caminhava para a noite, o restaurante tinha a esplanada bem composta de clientes, alguns deles, conhecedores da notícia, eram repetentes. A primeira surtida da raposinha tinha acontecido minutos antes, mas ficou a promessa do Humberto que “… não tarda por aí, é uma questão de esperarem um pouco mais, porque ela pega no pedaço de carne e vai, possivelmente, esconder, nunca come perto de nós…”.
Na verdade, pouco tempo depois, os clientes mais atentos viram-na chegar; fez uma pausa a uns metros de distância, e como ninguém lhe fez negaças, aproximou-se devagar, orelhas levantadas e o olhar atento ao mais pequeno movimento.
-“Lulu”, toma – diz o Humberto – e o animal, sem pressas, aproximou-se por entre as mesas, abocanhou o seu quinhão de carne, e voltou, nas calmas, pelo mesmo caminho.
A cena repetiu-se várias vezes, mesmo quando a ração era entregue por uma criança. Por vezes ficava parada perto da esplanada, como se esperasse que o “padrinho” a “convidasse” a entrar – só ele e a mais ninguém a raposinha “respondia”.
Numa floreira alta que fica perto, o Humberto escondeu um pedaço de carne; ela aproximou-se, um pequeno salto, farejou e… lá vai ela com o “petisco” na boca!

-“Não pensem que a “Lulu” come de tudo, tem o gosto refinado – comenta o Humberto – pão, só se tiver manteiga, não gosta de sardinhas assadas, prefere carne, mas do que ela gosta mais é de camarão”!
O animal é, como se calcula, uma atração no restaurante. Como mais vale prevenir do que remediar, já foi desparasitada, “…falei com o médico veterinário para ver se a conseguimos vacinar e colocar-lhe uma coleira”, acrescenta o Humberto Cerejeira que, a talhe de foice, sempre vai passando palavra aos vizinhos – não vá alguém ter a infeliz ideia de fazer uma espera à “Lulu, de caçadeira na mão…

Na opinião do doutor Modibo Mangara, conhecido médico veterinário de Oliveira do Hospital, como o animal faz parte da família dos canídeos, “ …embora não sendo vulgar, por vezes as raposas, se forem jovens, aproximam-se do Homem, principalmente se forem acarinhadas, como é o caso. Se houver algum cuidado, à partida, a sua presença fugaz não se torna perigosa, mas em casos semelhantes costumo aconselhar que contactem o Parque Zoológico de Gouveia, lá saberão como tratar dessas situações, inclusive recolher o animal…”.
Não vá a “Lulu” ficar dependente dos “mimos e favores dos seus amigos” do Vale dos Amores, talvez seja preferível, de facto, entregar a raposinha aos cuidados do Parque de Gouveia. Não é longe do local onde se tornou famosa, e sempre se poderia visitar no futuro, de preferência na companhia do “padrinho” Humberto Cerejeira, que certamente levaria uma “lembrança para matar saudades”, já que se tornou responsável por tê-la cativado, como aconteceu na estória do “Principezinho”, de Saint-Exupéry.
-“ Lulu, toma”!

21 de julho de 2008

“Espere em silêncio…tranquilamente”


"Há dias assim, com pormenores de gentileza e sorrisos a condizer"

O passaroco (mocho?) em relevo, pousado num galho, faz parte dos cartazes estrategicamente colocados na sala de espera e junto ao guichet das consultas de cardiologia, nos HUC (Hospitais da Universidade de Coimbra).
A legenda (do cartaz) “Espere em silêncio…tranquilamente”, não pode ser considerada uma ordem, nem anuncia espera longa, apenas sugere tranquilidade e boca calada.
Quem tem alguma maleita cardiovascular, deve procurar estar calmo, por isso, a sugestão é uma espécie de placebo bem aceite, creio, pela maioria dos utentes.
Naquele segunda-feira, a funcionária, ao “postigo”, quando fazia a minha inscrição, não foi de modas no aviso: o “meu” médico deixara de dar consultas e o substituto, como estava doente, não vinha naquele dia! Tinha duas soluções: ou regressava a casa e marcava atendimento para outro dia, longe no tempo, ou esperava e era recebido por outro médico depois ter passado em revista os “seus” doentes. Decidi esperar, “mas olhe que vai demorar bastante tempo a ser atendido”, disse a funcionária; “o que quer dizer com bastante tempo”?, perguntei – “umas horas”, respondeu com ar resignado.
Se tinha de ser assim, paciência, decidi-me pela espera em silêncio, tranquilamente…
Nos trezentos minutos, bem contados, que se seguiram, li todos os jornais que estavam espalhados pelas cadeiras, sempre de boca calada e com a tranquilidade que a situação exigia; depois, desci tranquilamente pela escadaria interior até ao rés-do-chão e fiquei quieto num sofá por tempo “infinito”.
Não faço ideia de quantos “malucos”, como eu, ocupavam o seu tempo de espera naquela pose contemplativa tradicional: pernas cruzadas, braços sobre os joelhos e o olhar atento a quem passava.
As pessoas, na sua maioria, traziam o passo acelerado, sinal de que estavam com pressa de chegar a algum sítio. Jovens licenciados, de bata branca e estetoscópio sobre o pescoço, cruzavam-se com gente humilde no trajar, um pouco perdida na confusão de quem conhece os cantos à casa; os delegados de informação médica faziam realçar a sua condição de mensageiros, elegantes nos fatos, de pastas recheadas de publicidade numa das mãos; seguranças e oficiais dos serviços de limpeza cuidavam das suas missões com esmero…
No enorme átrio da entrada principal não há cartazes a sugerir silêncio e tranquilidade; mesmo assim as conversas eram calmas e (aparentemente) tranquilas.
Cansado do entretêm a que me tinha proposto, subi ao terceiro piso.
“Ainda é cedo”, disse a funcionária que se preparava para terminar o dia de trabalho. Continuei a espera em curtos passeios pelo corredor…
Por volta das 5 da tarde – finalmente! – abriu-se a porta de um dos gabinetes, saiu de lá um sujeito com ar satisfeito, uma voz feminina chamou pelo meu nome e eu, ao entrar, disse “ boa tarde”, talvez com cara sisuda, daí que o sorriso da jovem médica, que acompanhou a retribuição do cumprimento, me tivesse devolvido a tranquilidade que, confesso, já era pouca….
Depois, vieram as (inesperadas) palavras que pacificaram por completo a minha consciência: “peço desculpa por ter esperado tanto tempo…”.
Perante atitudes de educação e respeito deste quilate, para que conste, não podia deixar de trazer a Doutora Elisabete à ribalta desta despretensiosa croniqueta.
Há dias assim, com pormenores de gentileza e sorrisos a condizer…

9 de julho de 2008

Cegos, surdos e mudos


Esta manhã, já avançada nas horas, li os títulos da Imprensa nacional, cumprindo um dos rituais diários.
Quando me agradam as notícias positivas, “entro” e leio; se me deixam curioso as parangonas deprimentes, “entro” e leio, mas se os títulos são inócuos, também “entro” e leio, nunca fiando, é que nem tudo o que parece é…
A facilidade com que dou a volta ao país, pela leitura, só é possível, é bom de ver, porque tenho Internet à distância de um click – uma maravilha da ciência que não dispenso.
Quando se tem tempo para pensar devagar, como é o meu caso, as náuseas são mais do que muitas, face a tanta crise, despoletada pelo aumento do custo do petróleo – é o que dizem os especialistas, todos eles, sobretudo os políticos que, pelo facto de o serem, mesmo os mais incultos em matéria económica, arvoram-se em “opinadores” doutrinários, e nós caímos na esparrela, acreditamos, e cá vamos “cantando e rindo”…
Perante alguns desplantes de enorme arrogância cívica, o povo tem o direito de espernear, barafustar, refilar e pouco mais. Valha-nos isso, se possível para sempre – amén!
Adiante. O tempo por aqui, pelo meu sítio, vai sereno, o rio tem menos força na corrente, não tarda chegam os sedentos do sossego. As pessoas hão-de gozar férias, regadas com vinho e cerveja, cultivando a saudade com arrotos de bebedeiras e, depois, irão felizes porque ouviram a banda tocar ou deleitaram o olhar com as danças do folclore. Férias são férias!
E assim se hão-de passar os dias, nesta aparente calmaria, entremeada com lamentos de churrasco,”… porque isto está mau, cada vez pior, só se fala de crise, ninguém sabe onde vamos parar, a sardinha está caríssima, agora nem se pode cortar um pinheirinho para aquecer o Inverno sem ter que dar conhecimento às autoridades…” – tudo por causa do nemátodo (uma praga voadora que veio dizimar a nossa riqueza florestal) - e por aí fora…
Este é um esboço da região onde estou inserido, não me atrevo a escalpelizar os males das outras, vizinhas ou nem tanto, já bastam os nossos, ainda que algumas maleitas sejam comuns, como é o caso concreto de alguns líderes que governam o poder local - os tais que, num repente, ficam doutorados em toda a linha do conhecimento, graças ao cargo que exercem.
…É por isso que sempre “tive o sonho de ser”, no mínimo, autarca no meu sítio; bem tentei, mas o povo, soberano, achou que não era merecedor de tamanha honra, ofertando-me o lugar “pelos meus lindos olhos”. Já que não cursei escola de grau superior, ao menos, por essa via, bem podia ficar com a chancela de doutor ou “coronel”, à moda do sertão brasileiro de outros tempos, mas não – continuo sem poder dizer “coisas”, como o meu presidente de Junta… 
Ia a croniqueta desta quinzena muito direitinha pelos caminhos da seriedade, quando, num despiste, ao dar de ouvido na bonomia de certo amigo, mais ou menos a meio do texto, saltou as barreiras do bom senso dos primeiros parágrafos. Disse-me ele, através do Nokia, que o povo anda cego ou pior ainda: cego surdo e mudo! Verdade?
E veio com uma cantilena de ouvir lá para o ano que vem, perto das eleições, não agora, o povo está sereno, tudo está sereno, como o “meu rio”, que se apresta para, no Verão, que há-de ser de calor africano, enxaguar as miudezas dos sedentos do sossego do sítio onde ouço o canto dos melros, rolas e um ou outro cuco, lá para os lados da Quinta do Barbeiro.

23 de junho de 2008

Sebastianista, eu?



“Uma andorinha não faz a primavera”

Ninguém se surpreenderá com o tema desta croniqueta, quando muito dirão que, à falta de assunto, venho carpir mágoas a “quente”, após a derrota da selecção portuguesa no campeonato europeu de futebol. Mas não, tirem daí o sentido: nada de desgostos, porque desde o primeiro jogo que, em silêncio, torci o nariz ao esforço da equipa; não desanimei com o que vi, mas daí até embandeirar em arco com uma vitória no torneio, nem pensar - fiquei comedido e esperançado na sorte que, dizem, protege os audazes.
Certamente foi (também) isso que D. Sebastião levou na bagagem: esperança na sorte e na ajuda divina para levar a bom porto a empreitada de Alcácer Quibir. Os resultados da nefasta epopeia são sobejamente conhecidos e deles, até hoje, não nos livrámos: em quase todos os portugueses há um “sebastianista” convicto… adormecido.

Durante o percurso Viseu / Suiça, até à noite de quinta-feira passada, foi dito e redito que Portugal reunia todas as condições para vencer a final, se lá chegasse, porque era (quase…) a melhor equipa. Infelizmente, ainda não foi desta vez que levámos a “ carta a Garcia” na garupa do “cavalo Lusitano”, simplesmente porque não tínhamos a melhor “cavalaria” para tamanho feito, como D. Sebastião não possuía o melhor exército (em quantidade de efectivos) nem estratégia militar para levar de vencida o inimigo…

Li algures, em tempos, que “… o sebastianismo não se esgota nos âmbitos étnico e nacional, aos quais, quase sistematicamente tem sido confinado…”.
Concordo em absoluto com a tese descrita em várias páginas, com conteúdo histórico, onde se procura demonstrar como o português sempre esteve afeito às coisas da Fé, daí que o desaparecimento de D. Sebastião “…fosse obra do destino…” e o seu regresso uma miragem de quem se sabia “órfão” com a morte de el-rei.
Sem ter a leviandade de arregimentar seguidores – cada um tem a sua ideia, sempre respeitável, como é de bom-tom no regime democrático – estou em acreditar que, neste caso do campeonato da Europa de futebol, a mente de muitos portugueses, esteve confusa entre o amor pátrio e a vontade inequívoca de conquistar o torneio – uma quase certeza, “ como se fosse obra do destino…”!
Idolatrou-se um atleta, como se dependesse dele a “salvação da Pátria Lusa”, e (quase) todos nós acreditámos na genialidade (inquestionável!) do Cristiano Ronaldo, mentor da fé lusitana – qual D. Sebastião! - na conquista do almejado troféu, com algumas semelhanças com o passado dos “conquistadores” Eusébio e Figo, no tempo em foram “reis” sem coroa…
Não se compreendem as diabruras de inúmeros comentários, depois da derrota com a Alemanha. “Éramos obrigados” a mais e melhor, como se, em campo, apenas existisse uma equipa – a nossa!
Bem lá no fundo das nossas consciências, todos somos “sebastianistas” por herança, faz parte da nossa maneira de ser, mas uma andorinha não faz a primavera, na ideia do grego Aristóteles - uma imagem perfeita a sublinhar a prestação do Ronaldo português.

A aposta na vitória de um torneio à escala mundial fica adiada para daqui a dois anos. Entretanto, o Ronaldo “amadurece” e será melhor jogador.
… Possivelmente, o guarda-redes da nossa selecção será outro.

9 de junho de 2008

A preços de saldo

Faz de conta que eu tinha uns tostões amealhados e que, por uma doidice, decidia investir numa equipa de futebol, adquirindo-a por inteiro. Nada de mais, os negócios do futebol estão na moda; assim sendo, bem podia fazer parte da tertúlia do Roman Abramovich, Thaksin Shinawatra, e mais uns quantos camaradas endinheirados – por que não?
Além do clube, havia de ter um terreno para a prática do jogo e, claro, jogadores suficientes para formar uma equipa, suplentes incluídos. Com as economias arrecadadas no cofre-forte, como o “tio Patinhas” sempre fez, contratava uns tantos jogadores “já feitos” e treinador com provas dadas na arte do chuto na bola – e pronto!
Procurar atletas estrangeiros – comunitários ou não – sem passar a fronteira seria fácil: chegam a Portugal às “carradas”, sem carta de chamada, como aconteceu no mês passado … a “preço de saldo”!
“Olheiros” fora de portas, para quê? É mais seguro, fácil e económico escolher a “mercadoria” numa montra, como a que o clube brasileiro “O Cruzeiro” trouxe até nós: vinte dos seus craques – vinte! – para umas partidinhas de forte emoção perante os olhares atentos de presidentes das sades desportivas, empresários, treinadores e investidores como eu, “faz de conta”….
A sibilina aposta no mercado português tem, na minha exagerada e radical opinião, resquícios de um “negócio”, (oficialmente abolido pelos portugueses no dia 12 de Fevereiro de 1761) que nem me atrevo a pronunciar…
Ora, lá pelo Brasil a informação chega tarde, pelos vistos; de outro modo, a “directoria” do clube em causa havia de saber que Portugal (já) é o país do mundo que importa mais jogadores brasileiros, e que muitos deles andam por aí à míngua de “vales por conta” do ordenado que não sabem se irão receber por inteiro…
Voltando ao “faz de conta”, estou em acreditar que na montra do “Cruzeiro” havia nomes garantidos, “com pinta e cheiro a craque”, a saber: Maicon, Emerson, ,Gatti, Rodrigão, Énio, Tallys, Fabinho, entre outros…
O hipotético negócio deu-me uma ideia, igualmente sibilina, mas não importa: e se carregássemos um avião, dos grandalhões, com … sei lá, não me lembro (e se lembro, não digo!) de ninguém em especial, mas podiam ser …os chatos, os políticos carreiristas, por exemplo, e os exportássemos igualmente a preços de saldo, ou mesmo à borla, para a Amazónia? Imagine-se essa malta a “praticar desporto” e outras actividades lúdicas em plena selva ao som e ao ritmo do carimbó!
No entrementes desta croniqueta, não soube de nenhum negócio de ocasião com o clube brasileiro, mas o melhor é fixar os nomes dos futebolistas/candidatos a vedetas, e esperar pelos campeonatos, que estão para breve, lá para o verão.

26 de maio de 2008

Francisco Rolo vai casar!


Veio no insuspeito tablóide “24 horas” do passado dia 15!
O assunto certamente não passou despercebido aos habituais leitores dos episódios pessoais e/ou intimistas – ditos “cor-de-rosa” – de gente famosa, como é o caso da “escritora” Carolina Salgado; eu, curioso, fui às páginas interiores do jornal, no intuito de ficar a conhecer os pormenores do próximo casamento da senhora que, pelos vistos, vai avançada na gravidez, o que abona, penso, a urgência do casório.
A notícia informa que o noivo da escritora Salgado tem um restaurante em Portalegre e uma estalagem em Castelo de Vide, é pessoa de posses e o enlace está para breve – não há mais pormenores que “identifiquem” o futuro marido. Mesmo assim, esmiucei as entrelinhas da primeira página, procurei meias palavras no desenvolvimento do título, e nada, fiquei na mesma – tudo muito em segredo…
Dito assim, a novidade parece não ter qualquer importância, nem o casamento nem a gravidez – o amor de tudo é capaz, quem não cometeu “loucuras” antenupciais que atire a primeira pedra – mas quando o consorte dá pelo nome de Francisco Rolo, a notícia surge como uma “bomba”, embora de fumo rasteiro e fogo fátuo!
Prezo o Francisco Rolo, um bom amigo, mas não lhe conhecia conversada a este nível “publicitário”; que é homem para casar e fazer filhos, acredito, mas subir “tão alto”, a ponto de andar nas primeiras páginas dos jornais pelo merecimento da noiva, ex madame Pinto da Costa – pormenor sem importância neste caso – nunca me passou pela ideia…
Será possível “tamanha fortuna”?
(Não coloco em causa a possibilidade do meu amigo ir num salto ao Alentejo e voltar num pulo às suas obrigações profissionais e sociais que tem por cá, na beira serra, uma, duas…muitas vezes, sem ninguém dar conta!...).
Ora, depois das cataratas do Niagara, onde pousei o olhar de espanto, se há “coisa” na vida que gostava de conhecer “ao vivo”, era a ex madame Pinto da Costa, por nenhuma razão especial, confesso – insisto que sou curioso de nascença…
Como não fui convidado para a boda, perdi essa oportunidade, paciência, mas que me dá pena, também confesso …
Mais calmo, passado o tempo do espanto seguido de outro de resignação, “perguntei”aos meus botões:
- E se a notícia do “24 horas” refere outro “Rolo”?
Enorme a coincidência, a ser verdade a minha dúvida, mas bem pode acontecer…
Até à hora do fecho da edição do CBS foi de todo impossível contactar o meu amigo que, penso, estar inocente no meio desta croniqueta, mas nunca fiando…
Há, pelo menos, uma certeza: se existirem dois Franciscos “Rolos”, um deles vai ter de jurar amor eterno à noiva, “até que a morte os separe”!
Ao rebento do casal, saudações benfiquistas - por um “apito”não nascia sob o símbolo do “dragão”!

12 de maio de 2008

Nem padre nem doutor

João Soares,
 entre outras virtudes,
é excelente
contador de estórias




Passaram longos anos sobre o dia em que fui desterrado para um primeiro andar de uma casa sita na rua Dr. João Jacinto, em Coimbra, com a finalidade de, um dia, chegar a doutor se para tal houvesse sabedoria.
A nobreza da intenção possivelmente foi abençoada pelo arcipreste Januário, pastor das almas da freguesia; porém, nem ele nem a minha família tiveram o cuidado de conhecer os meus anseios, coisa pouca, devo acrescentar: queria ser padre para entoar a imperceptível ladainha da missa ao domingo e usar uma “saia” negra como o prior.
Lá por casa tiraram-me daí o sentido com o argumento de que os padres não podiam casar e então, para não ter de inventar sobrinhas ou primas afastadas, o melhor era ser doutor de qualquer coisa e depois se veria com quem partilhar o aconchego da família oficial que havia de ter…
Coimbra e o Liceu D. João III seriam, pois, o destino da criança que eu era. E lá fui, com medos e vergonhas a fazerem mossa na imatura e periclitante personalidade. Fui, mas regressei no fim do ano lectivo, vergado a um chumbo de dois “noves”, escritos a vermelho na pauta.
No ano seguinte, havia duas opções: o colégio de Oliveira, afamado, ou o de Arganil, que não lhe ficava atrás nos resultados académicos. Escolheram por mim: Arganil –sempre havia carreira de manhã e à tarde, e ficava sob a alçada da família, que continuava a insistir no “doutor de qualquer coisa” - padre é que nem pensar!
As voltas que dei na vida afastaram-me, definitivamente, de todas as vontades e desejos.
Mais tarde, os ares de Abril trouxeram-me de regresso “à terra”, deixando para trás um pedaço de África, como se tivesse arrancado à força o sonho de…ser doutor – ou padre! - e voltei a Oliveira do Hospital a tempo de conhecer gente que, se a roda da fortuna tivesse girado noutro sentido, bem poderiam ter sido meus condiscípulos no Colégio Brás Garcia de Mascarenhas. Agora ouço relatos de peripécias inarráveis em letra de forma, conheço estórias de sucesso, e sei da saudade com que alguns desses amigos recordam os tempos do “Brás”.
Naturalmente, graças à dedicação dos professores e ao rigor do ensino, o mítico Colégio é referência nacional de um tempo em que para se “ser doutor no liceu” não estava ao alcance de todas as bolsas e Coimbra, depois do tirocínio em Oliveira, com aproveitamento académico, era o melhor destino para se chegar ao almejado canudo.
Algum do espólio do “Brás” está, a partir de agora, reunido num documento único, posto à disposição de centenas de antigos alunos que, por certo, vão gostar de recuar nos anos ao passar o olhar pelas duzentas e noventa páginas do livro “Do Colégio Brás Garcia de Mascarenhas ao Externato de Oliveira do Hospital 1932 – 1973” , mesmo que não tenham chegado a “doutores”.
…Pena será se a obra não estiver à disposição dos leitores da Biblioteca Municipal, à semelhança de outras com o mesmo carácter histórico.
Tem a palavra a Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital.
Por mim, nem padre nem doutor de qualquer coisa – continuo aprendiz pela “leitura do conhecimento” de mestres como o João Soares, o melhor contador de estórias que alguma vez conheci. Eu e alguns clientes do meu RiTuAL BAR, os mais atentos e curiosos, somos  "testemunhas abonatórias" das qualidades do meu ilustre "companheiro": . 

14 de abril de 2008

Às voltas com a História

Depois de conjugar uma mão cheia de situações, decidi mudar de estilo e ritmo de vida, nada que os mais próximos não estivessem à espera, mais dia menos - foi agora, pela primavera, para “renascer” no novo ciclo da mãe Natureza.

A vantagem que retiro destes dias sem obrigação que se veja útil à comunidade, é poder ler horas a fio, ouvir música e andar por aí; confesso a ausência destes pequenos prazeres durante anos, mas agora tiro a desforra nestes três ou quatro dias de vento e chuva que são um “encanto” para os sentidos!

À cabeceira continua “Rio das Flores”, do Miguel Sousa Tavares. Vou a meio do livro, com algum custo porque é “chato” pela minúcia da (s) estórias (s); estava disposto a terminar agora a leitura da obra, mas alterei os planos quando dei de caras com outro livro, da autoria do conhecido e polémico José Hermano Saraiva: “História Concisa de Portugal”, datada de 1980.

Primeiro umas linhas… depois uma história, e cá vou “devorando” mais de trezentos e cinquenta páginas com o prazer inaudito do regresso às origens do País que somos.

É bem capaz de nem tudo ter acontecido como é relatado, porque “quem conta um conto, acrescenta um ponto”; que importância tem, afinal, por exemplo, conhecer o pormenor da morte do D. Sebastião? Morreu à paulada ou à espadeirada - está morto e não se fala mais nisso.

A importância do que é importante, a meu ver, reside na lenda da sua morte e do significado de um certo “sebastianismo” bacoco, de que as “profecias” do sapateiro Bandarra fizeram eco. As “profecias” ainda se comentam, e o “sebastianismo”, como certo ideal de esperança (?) num salvador (sabe-se lá de quê!)  não desapareceu de todo…

Além dos desgostos de Alcácer Quibir, a morte do rei português trouxe mais tarde os espanhóis à liça “em casa alheia”, e por cá se mantiveram por um ror de anos, até que “corremos” com eles; voltaram à carga umas quantas vezes mas, cansados da guerra, uns e outros, lá se decidiram pelo sossego. E ainda bem!

… Se assim não fosse, hoje seríamos mais uma “região” sob o domínio do rei Juan Carlos, possivelmente a lutar entre muros pela independência do País Portugal, como o País Basco o faz…

A propósito: leram ou ouviram atrasado que o Nobel da Literatura, José Saramago, defendeu a integração de Portugal em Espanha?

Pois…

Sem comentários.

(Daqui a nada volto à História de Portugal; à conta dos pequenos conflitos e das guerras com os espanhóis, já li mais de duzentas páginas – é obra! Relembro que o autor cuidou em acrescentar ao título o adjectivo conciso - breve, sucinto - no feminino.

Para o escritor Saramago se “identificar” com o passado português, nem que fosse um pouco, possivelmente seria necessária a leitura de vários volumes da nossa História, digo eu…

Mudar de estilo e ritmo de vida, com tempo livre até dizer basta, traz à ideia cada coisa mais absurda….).

1 de abril de 2008

Piercings & mini saias

O deputado socialista Renato Sampaio é autor de um projecto-lei que, eventualmente, pode alterar a liberdade de quem pretende decorar parte do corpo com piercings. Como a saúde está primeiro, entende o deputado que deverá existir legislação adequada aos malefícios das tatuagens e similares, o que me parece bem …

Confesso desconhecer pormenores sobre a matéria, verdade seja dita. Portanto, a estória dos piercings e das tatuagens é coisa que não me dá pena, mas se o Governo entende por bem emitir Lei sobre o assunto, que o faça, está no seu direito.

Ora, factos são factos (a propósito: no acordo ortográfico luso brasileiro, o vocábulo «facto» fica como está – uma boa notícia para os puristas) e quanto a isso, nada a fazer: o IVA sempre vai baixar lá para o verão, o que pode significar melhoria de vida para os portugueses, na opinião do Primeiro Ministro, mas quanto aos piercings nada está decidido - uma péssima notícia para quem os usa ou pensa vir a usar, depois de legalizada a sua aplicação – escolhi este dois “factozinhos” por me parecer que não estão no mesmo pacote das coisas importantes - ou talvez estejam – para o português comum… Acreditando que o projecto-lei tem pernas para andar, no futuro a quem competirá fiscalizar a aplicação dos pingentes? À ASAE? Pois, não se sabe, mas há-de ser giro o fiscal, depois de se identificar, claro, solicitar ao eventual “prevaricador” que mostre certas partes do corpo, por norma resguardadas no recato de um slip; a elas, que desça o decote e o soutien!

…Se desce o decote, porque não subir a bainha da saia?
O “Público” online, a propósito de saias curtas, conta como a clínica espanhola San Rafael, em Cádis, espolia em alguns euros as suas funcionárias pelo simples facto destas não usarem mini-saia, como está estipulado no uso do uniforme obrigatório. As senhoras, enfim, recusaram o traje que, além de deixar as pernas descobertas obriga ao uso de um avental justo e pouco prático – leio. Além disso, argumentam, sentem-se objectos decorativos; diz uma: – “quando estamos a trabalhar não temos liberdade de movimentos e não nos podemos baixar para atender doentes que estão acamados.

Apesar dos nossos brandos costumes, acho que entre nós este tipo de farda jamais teria opositores (as), digo eu que sou do tempo do grande sucesso da mini-saia, inventada por Mary Quant dizem uns, outros dão a paternidade a Pacco Rabanne, a não ser que a proibição viesse de instâncias superiores, alicerçada no pudico desconchavo de alguns senhores…

Se a administração da clínica de Cádis entende que o uso da saia curta é um paliativo para os seus doentes, nada a opor -o efeito placebo, pelo menos, está garantido!

Quanto ao uso de piercings, nada consta…

18 de março de 2008

Escrever claro

O tempo de vida que levo a falar e a escrever português vai longo; mesmo assim, na escola primária fui a tempo de aprender que a palavra farmácia, por exemplo, se escreve como se lê e não com «ph» -pharmácia - como muito antigamente!
Algumas reformas linguísticas, entretanto, aconteceram com naturalidade - nada comparável ao que está para vir a breve trecho, depois de ratificado pelas partes interessadas o acordo ortográfico luso-brasileiro.
Li que vai existir uma adaptação vagarosa ao novo modo de escrever algumas palavras em português, o que é perfeitamente natural e normal; por aí ficamos todos descansados, sobretudo a gente nova, incluindo o Quico com dois anos, meu neto, e todas as crianças desta geração: têm uma vida inteira pela frente para aprender a escrever o “novo” português.
Um intelectual, dos que opinam com sabedoria coisas importantes para a História registar, disse e eu ouvi, que qualquer dia a língua portuguesa, tal qual é falada e escrita agora, fica restringida a um pequeno espaço físico rectangular, como se fosse um gueto europeu onde vivemos nós, os portugueses. O resto do mundo lusófono, simplesmente escreveria “brasileiro” – um exagero do senhor importante…
É reconhecido que a Pátria de Camões, Pessoa e tantos outros portugueses eruditos, cedeu bastante no acordo; não será, porém, pelo facto de desaparecer o acento circunflexo nas paroxítonas terminadas em «o» duplo («vôo» e «enjôo»), usado na ortografia do Brasil, ou escrever «úmido» em vez de húmido, que o português escrito deixa de ser a língua materna de mais de dez milhões de portugueses pelo nascimento ou adopção - «adoção», a partir de agora!
Afiançar que só os mais “antigos” continuarão a escrever em português “arcaico”(?) é, repito, um exagero.
Faço questão de, aos poucos, criar hábitos de escrita consonante com o novo acordo e não considero que passarei a escrever em “brasileiro”!
De resto, como sabemos, sempre dançámos ao som do que vem de fora – até na língua pátria - é disso que se trata - com todos os estrangeirismos adicionados ao longo da História.
Se os países africanos onde reinámos durante séculos ainda estivessem sob jurisdição portuguesa, alguns vocábulos locais poderiam ser acrescentadas, pela frequência da sua utilização, e nem por isso se diria que a língua passava a ser angolana ou moçambicana.
… Era giríssimo escrever em português de Portugal que determinada wansatai (mulher) ainda tombazana (rapariga) é maningue chunguila (muito bonita) – dialectos moçambicanos que em tempos passados se misturavam com a nossa língua, falada e escrita..
Esta semana vai ser posto à venda um novo dicionário da Língua Portuguesa, que inclui as alterações do acordo luso-brasileiro. Estou curioso…
Entretanto, ambanine (adeus), chega de bula-bula (conversa fiada):
- “A minha Pátria é a língua portuguesa” (Fernando Pessoa) – com ou sem estrangeirismos!

3 de março de 2008

Exercício sobre dois búzios ( de Sophia de Mello Breyner)

Um acaso devolveu-me à leitura de “Contos Exemplares”, de Sophia de Mello Breyner. O livro, que descobri numa arca no sótão, editado em 1971, tem as folhas amarelecidas pelo tempo - nunca as palavras imortais da autora.
Nesta edição (a 4ª), o então Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, assina o prefácio e é pela leitura das páginas que escreveu - mais de cinquenta! - que D. António nos remete para a excelência da obra de Sophia, apontando a sua enorme espiritualidade como referência a ter em conta.
À genialidade do conhecimento de D. António Ferreira Gomes junte-se o talento da maior poetisa portuguesa, e ficamos com uma “peça rara” do nosso património cultural.
Qualquer português minimamente culto conhece alguma coisa de Sophia de Mello Breyner. Particularmente, creio que “A Viagem” é uma espécie de catecismo pelo facto de dimensionar a esperança de qualquer humano, entre o “Alfa e o Ómega”, até aos limites do quase impossível!
Na estória de ficção, além do mais, a autora desenha poesia e poetiza a música das palavras, como sempre fez, com sensibillidade ímpar.
Não admira que a saudade de si, por tudo quanto legou à Humanidade, regresse nas asas do tempo, como a excepcional voz da cantora brasileira Maria Bethânia deixa transparecer no álbum "Mar de Sophia", editado, salvo erro, o ano passado, onde o mar e os seus símbolos, a partir da poesia de Sophia de Mello Breyner, nos transportam para viagens de completo encantamento.
Para meu regalo, a comunhão do belo (as palavras da Sophia na voz da Bethânia) chegou aos meus ouvidos numa tarde calma, bem longe do mar que a poetisa amava como se fosse coisa sua – somente sua! A “minha serra” sempre foi o lugar perfeito para a poesia que me enche a alma – por vezes descubro por cá, no silêncio, oceanos de emoções que nem a morte há-de apagar da memória dos vivos!
… E hei-de “voltar à minha serra”, como a Sophia ao seu mar:
-“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não passei ao pé do mar”!
Ainda nos “Contos Exemplares”, num deles (Homero) a autora retrata “… um velho louco e vagabundo a quem chamam Búzio…”. Obviamente, o texto mantém o estilo e a arte poética de Sophia..
De novo e sempre o mar:
-”O Búzio era como um monumento manuelino: tudo nele lembrava coisas marítimas…”.
Em Junho passado, depois das férias, conheci outro búzio: “ O Búzio de Cós e outros poemas” – novas imagens de outros mares que Sophia não precisa mencionar – basta uma simples e bela concha fusiforme e fica perfeito o cenário de Cós, ilha do mar Egeu, onde Sophia comprou o búzio “numa venda junto ao cais…”.
Às suas epopeias, Sophia de Mello Breyner, agrega dois búzios impregnados de simbologia que tocaram a minha sensibilidade: a um faltava o aconchego de uma “concha”: “ O Búzio não possuía nada, como uma árvore não possui nada. Vivia com a terra toda que era ele próprio...”; ao outro não ouvia “ … nem o marulho de Cós nem de Egina…”.
Por mais que me deleite nas marés dos seus poemas, fico sem saber quantos mares formam o caleidoscópio da áurea de Sophia de Mello Breyner…

18 de fevereiro de 2008

“Chiquelinas” na bola




Dos tempos da escola primária sobraram uns quantos resquícios da “inimizade que fui mantendo” com os vizinhos espanhóis, por culpa das estórias que a História de Portugal ensinava, é bom de ver, e não por quaisquer outros motivos…
Com o mar a bordejar a costa, só da Espanha poderia vir o perigo em passada larga ou curta (pensava eu…), daí que fazia algum sentido o aforismo: “De Espanha nem bons ventos nem bons casamentos”. E foi assim durante anos, sempre com a perversa imagem que vinha de longe, pela fé e maledicência dos mais velhos.
À medida que o tempo foi passando, as ideias clarificaram-se, África atravessou-se no meu caminho, cresci como homem, e concluí com toda a naturalidade que fomos tão “safardanas” como as gentes de todos os sítios e de todos os tempos, espanhóis incluídos. Conheci de perto uma mão cheia deles, viajei por caminos e carreteras, partilhei costumes cívicos idênticos aos nossos, enfim, habituei-me a “gostar”. E como vão ter uma rainha charmosa, de nome Letícia, agora sou ligeiramente espanhol…
Espanha, na verdade, “mete num bolso o país que somos” em termos de espaço geográfico, tem população bastante para ser considerada uma grande Nação, e está uns furos acima de nós nos argumentos económicos Assim, se lhes der na real gana, metem mãos à obra e movem montanhas (ou quase…)!
Portugal, embora país pequeno, com menos cidadãos por metro quadrado, também é capaz de subir aos “píncaros da lua” e, sozinho, sem parcerias, “levar a carta Garcia” com qualidade, dignidade e sucesso, o que muito nos honra - casos da Expo.98 e do europeu de futebol de 2004, por exemplo!
Entrementes, leio e ouço que o presidente da Federação Portuguesa de Futebol teve a ideia peregrina de “sugerir” à sua congénere espanhola a realização conjunta do campeonato mundial de futebol de 2018.
Boa, pensei! - andamos necessitados de novas adrenalinas e se começarmos desde já a puxar o lustro às botas, daqui a dez anos vai ser um regalo, melhor que em 2004, digo eu, talvez sem Scolari, mas certamente com Mourinho ao leme da selecção! O pior é se a “porca torce o rabo” e a candidatura conjunta não passar das intenções do presidente da federação nacional portuguesa…
Pensando bem, sou capaz de descortinar um “pequeno senão” na proposição da candidatura, com origem lusitana: se os espanhóis concordarem com a ideia, são capazes de dizer por aí que somos uns coitados, vamos a reboque dos poderosos e em minoria; se os nossos vizinhos disserem “obrigadinho, mas não estamos interessados, concorremos sozinhos”, outras vozes se hão-de levantar para carpir a vergonha nacional, face à (eventual) rejeição…
Usando linguagem tauromáquica: e se fossemos à “luta” sem "muletazos" espanhóis?

8 de janeiro de 2008

O cigarrinho e a saúde pública

Cada vez que muda o calendário, anunciando o começo de um novo ano, a conversa da treta é sempre a mesma: “este ano é que vai ser (…), ano novo vida nova…” – palavras e ideias da “tanga”, mas que sustentam a “fé” com que encaramos os dias que se irão seguir, até fechar o ciclo.
A fé, segundo os entendidos na matéria, é uma “coisa” parecida com o vento: não se vê, mas sente-se! Então, se a ventania for medida à velocidade de um ciclone, imagine-se a “força da fé” de quem tem nos sonhos a esperança de um tempo renascido para melhor, claro.
Sou dos que alinham no clube do agnosticismo, mas nem por isso deixo de ser curioso, com algumas reminiscências católicas /apostólicas/ romanas na minha conduta espiritual – uma espécie de contra-senso, dirão, mas as “imperfeições” devem ser assumidas, como esta e outras que não vêm ao caso. Assim sendo, também fiz um brinde ao ano que acabava de chegar, com “fé” e esperança nos novos 366 dias (não esquecer que este ano é bissexto…), esperando o melhor…
Para começar bem o ano -já se sabia - o povo foi confrontado com a lei do cigarrinho e agora, amigos, fumar com deleite à hora da bica só em locais especiais, devidamente (?) seguros para fumadores e não fumadores; isto é: o meu cigarro é meu e só meu, e não tenho nada que distribuir baforadas à borla ao vizinho do lado que, por sua vez, inala com volúpia o fumo do seu e só dele cigarrinho, o que é uma “injustiça”, é bom de ver, porque sou amante de cocktails e, neste caso, não posso “saborear”, cheirando, a mistura de tabaco Virgínia com mais ou menos alcatrão, nicotina e monóxido de carbono.
A Lei é para ser cumprida, não se fala mais nisso nem nos castigos a quem for apanhado com o cigarro ao canto da boca em locais isentos de poluição tabagística – sempre em nome da saúde pública, claro; nós, povo, devemos estar agradecidos a quem se preocupa com a nossa saudinha, não vá o diabo tecê-las.
Quanto aos responsáveis pelos estabelecimentos da restauração e outros que, em liberdade, decidem se devem aplicar a Lei, com as restrições que se conhecem, a “felicidade” é enorme: podem optar por morrer devagar pela falta de clientes (fumadores viciados), por ser da sua responsabilidade a decisão de não fumar nas suas superfícies comerciais, não por estarem preocupado com a saúde pública, óbvio, mas porque não têm capacidade financeira para investir na tecnologia da sucção dos ares viciados; quem aceita que se continue a poluir, cada um lá saberá dos mundinhos onde se move, e a saúde pública, também aqui, é irrelevante…
Ainda a saúde das pessoas e outros animais: imagine-se esta coisa “absurda” (ou talvez não…): em vez de se aumentarem os combustíveis, podia subir o preço dos maços de cigarros sempre que os custos do petróleo disparassem no mercado! Possivelmente haveria mais carros nas estradas e mais acidentes mas, pela certa, o número de fumadores diminuía – tudo em nome da saúde pública, é bom de ver!
E a poluição dos gazes dos escapes? – perguntará o leitor.
Isso seria coisa para se ver depois e, certamente, as insignes inteligências encontrariam uma solução, proibindo “qualquer coisa” que permitisse ao buraco do ozono “respirar” melhor (e nós também)!
Proibir o quê? – a circulação automóvel, por exemplo!
Foi só uma chalaça…
Claro que a saúde pública teria – como tem – “primazia”, como acontece com a remodelação (sim, remodelação, ou será “revolução?...) dos SAPs.
…Outra chalaça
Como estou com “veia”, apetece-me deixar mais uma “dica” a quem manda nas manifs contra as mudanças que o Governo encetou: conhecem aquela musiquinha do Sérgio Godinho “P'ra melhor está bem, está bem, p'ra pior já basta assim…” ?
“Bora” lá cantarolar, afinadinhos, como convêm…

25 de dezembro de 2007

Insónias e pesadelos

Vá lá saber-se porquê, uma noite destas tive uma insónia que me deixou mais cansado do que estava quando me deitei.
Dei conta disso depois das voltas nos lençóis; como se não bastasse o corpo maçado, também a alma ficou dorida pelo corrupio de ideias (?) que durante todo esse tempo afloraram à mente, coisas parvas, estúpidas, algumas sem sentido, mas eram ideias e pronto - guardei-as para descodificar em melhor ocasião.
Tenho para mim que a falta de sono surgiu na sequência de um daqueles pesadelos de que quase nunca nos lembramos ao acordar; coisa boa, no mínimo razoável, não terá sido...
Como é bom de imaginar, horas a fio naquele jeito incómodo de estar deram-me a volta à cabeça. Ainda peguei num dos livros que tenho à cabeceira, editado recentemente, “Rio das Flores”, de Miguel Sousa Tavares, mas a leitura não trouxe o resultado esperado; reconhece-se ao autor talento e qualidade na escrita e na palavra dita, mas este romance, a meu ver, peca pela minúcia de determinados relatos e esse pormenor enfadou-me, confesso.
A propósito do título, quando o li, pareceu familiar. Pelas dúvidas, fiz uma busca (abençoada Internet!) e encontrei: Rio das Flores é nome de cidade brasileira, pertence ao município do Rio de Janeiro! Mera coincidência, dirão, também creio…
O Brasil é um país que me seduz por múltiplas razões; “sei” de um colibri, passarito simpático, de bico esguio e ágil, que suga o néctar das flores pairando no ar com as asitas em frenética velocidade, como todos fazem; este rodopiou uma, duas, vezes, à volta da “primavera” e quase a beijou, como se fosse flor.
Será – é! – uma imagem romântica, como outras que poderia surripiar da obra do poeta Mário Quintana, por exemplo, mas basta esta para ilustrar a poesia do gesto.
Obviamente, não é só o “beija-flor” que me fascina naquele país irmão. Pouco amante da arte do samba, prefiro a dança do futebol, aprecio a paisagem “ africana” de que tenho saudade, e o quentinho do clima – outra saudade, agora ainda mais sentida pelo contraste do frio que vai fazendo por cá…
Volto à minha insónia.
È fantástico como no “silêncio do escuro” se pensa de forma profunda nos afrontamentos da vida e nas “soluções” para os problemas que carregamos diariamente!
Porém, quando vem a luz do dia, ou se acendemos a lâmpada do candeeiro da mesinha de cabeceira, aquilo que parecia ter lógica, deixa de ter, e as soluções quando muito não passam de hipóteses…remotas.
Quero dizer que devemos estar em permanente escuridão quando se procuram decisões para os problemas de vária ordem e qualidade? Nada disso - é importante que tudo seja feito às claras, sob pena ficar alguma sombra incomodativa.
Se há uma solução para determinado coisa que atrapalha, vamos a ela!
O pior é quando não se consegue enxergar uma luz ao fundo túnel e as insónias se confundem com pesadelos…

4 de dezembro de 2007

“Mondego”, o cão

Trago o Paulo Marques à ribalta da minha despretensiosa croniqueta pelo facto de ser considerado muito justamente figura pública solidária.
Diga-se, em abono da verdade, que o Paulo, “velho” conhecido de mais uma década, coloca a sua paixão por pessoas e bichos no mesmo prato da balança – no outro estão os seus afectos em actos e palavras.
A homenagem, quase privada, que lhe foi prestada no Domingo passado, teve a ausência (esperada) dos “outros amigos” a quem ele dedica especial desvelo; há, pelo menos, oitenta desses amigos de quatro patas que, se fosse possível, o teriam ido parabenizar.
Se os animais “falassem”, era isso que teria acontecido, sem qualquer dúvida, na “opinião” do rafeiro com nome rio: “Mondego”.

“Quando “criança”, o “Mondego” era o enlevo da família de acolhimento, graças à sua permanente disponibilidade para as brincadeiras dos meninos da casa. Então a Rita, traquina, não lhe dava parança um minuto, mas que importava isso se ela era a sua preferida nos jogos de “esconde / esconde” de que tanto gostava! Já o Hugo, irmão mais velho da Rita, não era flor que se cheirasse: puxava-lhe o rabo e pontapeava-o a meio da paródia.
O “Mondego” chorava, como só os cães sabem, e escondia-se fosse onde fosse logo que o Hugo começava com a “patifaria”, na honesta opinião de qualquer cão.
Apesar disso, o “Mondego” considerava que levava uma bela vida: comida da melhor, banhos, anti pulgas, vacinas – tudo com preceito, até a alcofa onde dormia merecia ar puro diário.
O “Mondego”, naturalmente, cresceu. Diz “ele” que o pior defeito trazido do tempo de “criança” era a irreverência...
Um dia, quando nada o previa, o dono levou-o a um passeio, serra acima, e enquanto se entretinha com os cheiros daquele mundo meio estranho, levou longe demais a correria, a ponto de se perder atrás de uma moita. Depois de ter erguido as orelhas e aguçado o olhar em busca do dono, concluiu que tinha sido abandonado à sorte do destino incerto
Depois de horas a fio sem rumo (ou foram dias?), apercebeu-se do barulho familiar dos automóveis que iam e vinham em velocidade estonteante.
Devagar, cansado, foi até à berma daquela estrada que nunca tinha visto assim cheia, e por lá ficou, indeciso:
- Atravesso para o outro lado, ou volto para trás? - pensava .
Todo ele tremia – o instinto dizia-lhe para ser cuidadoso.
De repente, um dos muitos automóveis, em marcha lenta, acendeu uma luzinha, como se lhe piscasse o olho, e parou mesmo ao seu lado.
Resoluto, o Paulo Marques - conheceu-lhe o nome mais tarde – pegou em si, com jeito e palavras mansas, e colocou-o no banco de trás.
A viagem foi longa. “Conversaram”, ele com latidos e abanadelas de rabo que, tinha a certeza, o seu protector entendia, e este a querer saber coisas: de onde vinha e para onde ia – coisas que, para um cão como ele, agora em segurança, eram desnecessárias…
O Paulo, disse-o na roda de amigos, “limitou-se a alterar a vida e o futuro do miúdo”, sem pensar nas consequências: espaço para alojar o “Mondego” e a “zanga” da mãe:
- Mais um, Paulo?
O pai, homem de outros cuidados, atenções e paciências, por certo conformou-se com o novo hóspede do canil, e “inventou” um lugar digno e acolhedor, de modo a que o “Mondego” se sentisse em casa.
- Bem-vindo – disse o Paulo.
Feita a “chamada” do recolher, responderam oitenta e três utentes, incluindo o “Mondego”!

22 de outubro de 2007

Caloiros “à solta”


“(…)O Ginja II, que tem jeito para o canto,

Apresentava-se com um estilo de penteado com tendências futuristas,

deu nas vistas - pelo menos enquanto não visitou o barbeiro para acerto das escadinhas laterais, entre as orelhas e o cocuruto(…)”

Não perco pitada das estórias contadas em jeito de crónica pelo escritor Rui Zink, daí que procure alguns dos seus subsídios para meios sorrisos eloquentes, como o excerto deste texto: “Dinossauros excelentíssimos”, que pode ser lido nas suas crónicas benditas: “Luto pela felicidade dos portugueses”.

“…Ao almoço, no restaurante:

- O que recomenda?

- O pargo está uma delícia, e além disso é licenciado em Económicas

- Hum… licenciado em Económicas…

- Mas olhe que está uma categoria…

- Eu sei, mas queria qualquer coisa mais substancial. Não tem nada com mestrado?

- Peixes não, mas tenho umas costeletas de vitela que estão a tirar o doutoramento em Oxford. Fritinhas e servidas com batatas da Católica ficam uma maravilha”.

O diálogo saboroso bem podia fazer parte de um Sketch a que os novos caloiros estariam sujeitos, se a Praxe académica tivesse outros contornos de entretenimento puro, o que não invalida a comicidade dos parodiantes em situações inventadas, na hora, pelos doutores.

Graças aos noviços da ESTGOH fiquei a saber que o balcão do bar onde alguns estudantes foram vítimas da Praxe, mede “quase” oitenta paus de fósforos; não acredito, apesar dos encarregados, na proporção de três para um (trabalhador), garantirem a autenticidade dos cinco centímetros de cada amorfo.

As dúvidas resultam do facto de, entre eles, apesar da sobriedade com que se apresentaram ao trabalho, não existir consenso quanto às metades que faltam ou sobram a cada ladrilho: que fazer aos sobejos dos ditos? Ou será que são pequenos em demasia?

Em defesa da lógica, o doutor Carlos Maia “Fiúza”, filósofo de ocasião, apontou uma garrafa de Porto e do alto da sua insigne sabedoria, discursa:

- Isto é simples: para mim, a garrafa está meia vazia; aqui para o Ginja, meia cheia!

O Ginja II, que tem jeito para o canto, apresentava-se com um estilo de penteado com tendências futuristas e deu nas vistas - pelo menos enquanto não visitou o barbeiro para acerto das escadinhas laterais, entre as orelhas e o cocuruto. Pensativo, o Ginja II, como se imagina, concordou com o mestre, não fosse este ordenar punição maior pela irreverência do contraditório.

A tertúlia compôs-se, segundo o grau e qualidade de quem ia chegando – pessoas ilustres e ilustradas pelo traje negro sem pergaminhos, por ora, a saber: doutores Hélder Pinto, Romeo (com o, sim senhor …) Vieira “Laurent Robert”, Bruno Gomes, e Carlos Maia ”Fiúza”, os engenheiros Santarém, “o campino”, Álvaro Ferreira,”o músico”, a que se juntaram os afilhados Mi Gusto, Lloyd e Roger. Faltaram à chamada o doutor João Paiva, “o teórico da bola”, possivelmente a congeminar nova táctica que possibilite vitórias ao seu clube, e o engenheiro João Bagorro, “o alentejano”, talvez a meio da única “imperial” do dia!

A coberto dos cuidados paternos, alguns ficaram no anonimato, como convém.

Para o Ludovic Costa, “o francês”, 23 anos de idade, licenciado em Económicas, voltar a ser caloiro em Engenharia Civil, “é obra”!

A ESTGOH começa a ser aliciante para a classe estudantil, daí que a Praxe se instale com cânones próprios - falta eleger o Dux Veteranorum!!

Perante “malta” de tal jaez, espera-se, em Oliveira do Hospital, um ano lectivo recheado de bons costumes académicos.

Quanto às aulas, há tempo, “o ano só agora começou” – palavra de caloiro!