Uma espécie de autorretrato
Há oitenta e um anos que procuro construir uma biografia feita de serenidade e curiosidade intelectual. Exagero — talvez deva recuar aos vinte anos para me reencontrar com o tempo em que fui militar: sereno quanto baste, por vezes amedrontado, mas sempre curioso e atento.
Gosto de celebrar cada aniversário no aconchego da simplicidade, desafiando os números sem grandes aparatos — sobretudo este ano, que sucede a uma data redonda. Ao longo de uma vida feita de altos e baixos, tenho procurado manter a mente viva, desperta e criativa. Encontro no quotidiano o prazer da leitura, da escrita e da música de que mais gosto, sem esquecer o tempo dedicado a cuidar das minhas plantas. Acompanho o que acontece para além do meu pequeno mundo, sem pressas nem correrias. Gosto de pensar sobre as coisas simples e procuro reconhecer, com humildade, «o pouco que sei sobre o muito que ignoro».
A minha caminhada continua a ser, assumidamente, a de me apaixonar pelas pessoas e pelas causas públicas, mantendo acesa a chama de uma cidadania humanista, inspirada nos valores da fraternidade e da liberdade. É também uma forma de estar que encontra eco no pensamento de Spinoza: reconheço o divino na harmonia da Natureza e na essência do próprio Universo. A consciência da finitude acompanha naturalmente esta reflexão. Encaro a morte física sem dramatismos, com a serenidade de quem aceita o curso natural da existência e sente já ter compreendido o essencial.
Essa serenidade manifesta-se também na ternura com que olho o próximo e na disponibilidade para oferecer uma palavra de conforto ou um sorriso a quem deles precise. Muito do que sou devo-o aos meus cinco filhos, pois é no amor, na cumplicidade e na partilha com eles que encontro uma parte fundamental do meu próprio retrato.
Se a vida é um balanço permanente entre o que nos dá e o que nos tira, aprendi a não deixar que os momentos de angústia apaguem a memória de tudo quanto ela me ofereceu de bom. É nesse exercício de reconhecimento e gratidão que encontro forças para seguir em frente, com a mesma curiosidade de sempre e a tranquilidade possível de quem continua a gostar de viver.
Uma espécie de autorretrato
Há oitenta e um anos que procuro construir uma biografia feita de serenidade e curiosidade intelectual. Exagero — talvez deva recuar aos vinte anos para me reencontrar com o tempo em que fui militar: sereno quanto baste, por vezes amedrontado, mas sempre curioso e atento.
Gosto de celebrar cada aniversário no aconchego da simplicidade, desafiando os números sem grandes aparatos — sobretudo este ano, que sucede a uma data redonda. Ao longo de uma vida feita de altos e baixos, tenho procurado manter a mente viva, desperta e criativa. Encontro no quotidiano o prazer da leitura, da escrita e da música de que mais gosto, sem esquecer o tempo dedicado a cuidar das minhas plantas. Acompanho o que acontece para além do meu pequeno mundo, sem pressas nem correrias. Gosto de pensar sobre as coisas simples e procuro reconhecer, com humildade, «o pouco que sei sobre o muito que ignoro».
A minha caminhada continua a ser, assumidamente, a de me apaixonar pelas pessoas e pelas causas públicas, mantendo acesa a chama de uma cidadania humanista, inspirada nos valores da fraternidade e da liberdade. É também uma forma de estar que encontra eco no pensamento de Spinoza: reconheço o divino na harmonia da Natureza e na essência do próprio Universo. A consciência da finitude acompanha naturalmente esta reflexão. Encaro a morte física sem dramatismos, com a serenidade de quem aceita o curso natural da existência e sente já ter compreendido o essencial.
Essa serenidade manifesta-se também na ternura com que olho o próximo e na disponibilidade para oferecer uma palavra de conforto ou um sorriso a quem deles precise. Muito do que sou devo-o aos meus cinco filhos, pois é no amor, na cumplicidade e na partilha com eles que encontro uma parte fundamental do meu próprio retrato.
Se a vida é um balanço permanente entre o que nos dá e o que nos tira, aprendi a não deixar que os momentos de angústia apaguem a memória de tudo quanto ela me ofereceu de bom. É nesse exercício de reconhecimento e gratidão que encontro forças para seguir em frente, com a mesma curiosidade de sempre e a tranquilidade possível de quem continua a gostar de viver.




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