22 de julho de 2007

Ditos e (inter) ditos

A minha cidade tem muitas noites sossegadas – demasiado sossegadas - como hoje, recolhe-se cedo, mas aqui, no meu "universo", de tecto negro e paredes claras, onde repousam quadros do Wil de Wildt, Frenk Steffens e Rui Monteiro, iluminados por luz branca e directa, o som que me chega aos ouvidos vem do dedilhar das cordas das violas.

São dois os artistas, dois os instrumentos: uma Fender e uma Ovation que se completam como amantes apaixonados; à suavidade das cordas de nylon sobrepõe-se o timbre do aço no solo de peças musicais, tão clássicas quanto a minha mente consegue catalogar no tempo: "Guitar Tango", "Apache", "The Savage"... e mais e mais!!!

Os " Shadows" foram e são o meu grupo musical de eleição, e deles guardo "quase tudo", desde os primórdios dos seus verdes anos à década de oitenta - outra época de ouro nos arranjos de "Themes & Dreams", por exemplo.

Só o Hank Marvin poderia fazer, agora, com que me sentisse jovial no sossego do meu mundo e num tempo "quase perfeito"!

...O Sérgio e o "Zé" Augusto, às vezes, têm destas memórias, entre dois whisky's.

A Isabel trouxe uma amiga, escolheram uma mesa de canto; pediram uma cerveja e um cocktail. O taberneiro sugeriu a marca da moda, servida no copo característico, e sobre as "misturas" falou das suas invenções. A amiga da Isabel preferia outro composto: vinho tinto aquecido, rodela de laranja, um pouco de canela e uma pitada de cravinho - de fácil preparo, acrescentou.

- Intragável - pensei.

Vieram as bebidas e a Isabel, sorridente e bem disposta, sugeriu que provasse a mistela, o que fiz por simpatia.

Para o meu palato, simplesmente horrível!...

Não dei parte de fraco, corri à copa e bebi um enorme copo de água!

A noite ia alta.

Depois de saborear com deleite a beberagem, a amiga da Isabel pagou a conta e saiu.

A Isabel ficou no mesmo lugar, mas à segunda cerveja, decidiu-se pelo balcão e por ali ficámos em amena cavaqueira

Procurei ser bom ouvinte de estórias intermináveis, sem comentários: era a noite de "todos" os desabafos!

Veio outra cerveja.

Falámos de terras no "fim do mundo", de viagens feitas, de sítios que "adorávamos conhecer", de amores e desamores...

A Isabel deixou de olhar de frente, e quando voltou a fazê-lo, trazia os olhos molhados, não sorria, como sempre faz...

Concluímos que o momento era o menos próprio para recordações que se desejam esquecidas. Para sempre!

Ponto final.

..... E fiquei sem saber o nome do cocktail que, pelos vistos, é típico de países frios, como a Holanda - é o que afiança a Rita, emigrante a meio tempo no país das túlipas

- Agora percebo porque é que os holandeses gostam tanto de Portugal – diz a Rita cansada de tanta água!

Para estas duas amigas, o " sol português não as deixa" voltar às origens!

O peso dos anos tem a importância e o valor do trajecto que percorremos.
O carrego pode ser pesado se a vida foi madrasta, ou leve, se a fortuna teve sorrisos de boa vizinhança. Em qualquer dos casos, a memória funciona como arquivo de todas as coisas, boas e más.

Por vezes, de forma voluntária, recordamos outros tempos, perto ou longe do momento presente, ou é o acaso que nos faz lembrar o passado.
Casualmente, hoje, encontrei na mesa de um bar um jornalzinho que não folheava desde os tempos em que ia à Missa, aos domingos, já lá vão uns anitos. Chama-se O AMIGO DO POVO, é editado pela Diocese de Coimbra, e tem de vida mais de noventa anos!
São duas folhas "A4", de conteúdo evangelizador, naturalmente, e é informativo quanto baste.
Tinha (e tem!) uma secção que lia com enlevo: "Ao calor da fogueira" - diálogos simples e moralistas, como é o caso da edição 4280.
De tanto querer saber (e nada sei!...) tornei-me agnóstico, mas este jornalzinho transportou-me à infância na minha aldeia, ao padre Januário, às brincadeiras do pião e aos futebois no largo da escola, às reguadas da professora Georgina e aos seus preciosos ensinamentos, à primeira namoradinha, ao Peixoto (a quem sovei de raiva, certa tarde, por causa da Teresa, que era miúda de alguma beleza e sorriso brejeiro), aos passarinhos presos nas armadilhas, aos mergulhos no rio, ao Américo Cigarrada (que saudade dos peixes que agarrava à mão, no rio Alva, só para me satisfazer os desejos!...), à avó Virgínia, à mãe Natália...
O AMIGO DO POVO era o meu jornal de domingo, que lia durante a semana!

Um pouco da "minha " cidade

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8 de julho de 2007

Seis “pompons” na beira da estrada

"Encontros imediatos"

Ouvi na rádio que a Câmara Municipal de Arouca, no distrito de Aveiro, está a projectar no terreno uma iniciativa fora do vulgar, tendo em vista dinamizar o turismo rural

Recorro à página oficial da “ANCRA” - Associação Nacional dos Criadores da Raça Arouquesa” e fico a saber que “…as vacas adultas, de manhã são levadas para o monte onde passam todo o dia e só regressam já de noite. Os vitelos ficam na "corte". Mamam antes da vaca sair, e, quando ela regressa do monte…” .

Portanto, a estória que ouvi de fugida, tem a ver com esta espécie de gado bovino que se alimenta nos baldios da região, mas o que prendeu a minha atenção, foi o pormenor da ideia: qualquer um de nós pode adquirir um animal desta raça (ou mais!), que terá um chip incorporado no dorso de modo a ser localizado com facilidade enquanto vagueia pelos montes. A entidade responsável pelos cuidados dos animais, sedeada no local, a qualquer hora do dia, pode ser contactada pelo proprietário e este, se desejar, pode visitar o seu animal no habitat natural. O dono também pode negociar a sua vaca com quem entender, mediante certas regras, etc, etc – ouvir as notícias na rádio, a meio, não é o mesmo que saber das ditas pelo jornal, porque, pela leitura, ficamos com a informação por inteiro, podemos voltar a trás, reler…

Interessante, na minha opinião, a iniciativa, quase cópia do que o Jardim Zoológico pratica quando nos decidimos “apadrinhar” determinado animal, contribuindo para o seu sustento; neste caso, a vaca pode ser negociada e é bem possível que apareçam “investidores” interessados no lucro…

Por falar em “apadrinhar” animais (e agora começa outra estória, inspirada na iniciativa da Câmara de Arouca), há uns tempos atrás dei de caras com duas raposas, ainda jovens, penso, que se cruzaram comigo quando ia para casa, noite alta. Apesar de conduzir devagar, diminui ainda mais a velocidade do meu carro e fiquei a vê-las, por segundos, numa “luta” sem intenções perigosas, digo eu. Terminada a brincadeira, foram à sua vida, atravessando a estrada. A partir desse dia, pelo menos uma está “á minha espera”, e logo que a luz dos faróis a ilumina, levanta-se, olha para “mim”, e passa para o outro lado, perdendo-se no mato que, por ali, é rasteiro.

Acredito que os progenitores andem por perto, mas como as “nossas relações são pacíficas”, não creio que “aconselhem” os filhotes a mudarem de pouso. O mesmo “dirão” os esquilos que de quando em vez vejo saltitar nos carvalhos, durante o dia, ou os “Saca Rabos” (espécie de gato bravo) quando procuram caça, coelhos ou javalis desgarrados. De certa forma, são todos meus “afilhados”!

Quantos às perdizes, nem vê-las!

Como posso escolher um dos dois caminhos que tenho à disposição para ir e vir, alterno. Um deles, de curvas bem contadas, talvez umas noventa! Se a paciência é pouca, vou pelo outro - sempre é mais a direito por entre os pinheiros de porte alto.

É neste percurso menos sinuoso que tenho, quase sempre, os meus encontros imediatos, talvez por bordejar, em certa medida o “meu rio” (pobre dele, quase morto). Como os meus “amigos” bichos matam a sede nas águas do Alva, andam por lá, fazem os ninhos nas árvores, ocupam as tocas de uma assoalhada e convivem entre si segundo as regras da mãe Natureza.

Surpresa maior: há dois dias, depois de (mais) uma curva, reparei que estavam uns “pompons” enroscadinhos na berma da estrada. Parei, as bolinhas de pelo ganharam vida e, meio assustadas esconderam-se na valeta pouco profunda. Contei quatro cachorrinhos matizados, entre o branco e o preto, alguns com tons de cinzento no pelo.

No dia seguinte, à hora do almoço, levei-lhes meia dúzia de conchas de sopa – daquela que só a mãe Natália sabe fazer, espessa e saborosa, de fazer crescer água na boca só de olhar!

Então, decidi: como não posso ter uma vaca de raça “Arouquesa” mesmo minha, e como não sou “padrinho” de nenhum animal em cativeiro, no Jardim Zoológico”, assumi a responsabilidade de alimentar, pelo menos uma vez por dia, os “meus pompons” - que afinal são seis e não quatro! - mais a mãe, baixota e feia de tão magra, mas que “sorri” abanando o rabo sempre que me vê chegar; fica especada a olhar os filhotes e é incapaz de se servir um pouco que seja da ração que despejo em recipiente próprio – sirvo-a à parte, “agradece” com o mesmo “sorriso”, e quando volto à estrada, pelo canto do olho, vejo que continua de rabito no ar, como se estivesse a dizer adeus.

22 de junho de 2007

Como se fossem dois adolescentes

A meio da tarde, no bar, havia mesas livres; o casal entrou, escolheu uma delas, olharam os dois em redor e, já instalados, pediram que lhe servisse duas bebidas.

Os olhares perdiam-se pelas paredes, onde estavam exposta pinturas do Wild de Wildt, Rui Monteiro e Alberto Péssimo; a. música ambiente aconchegava o sossego do momento e o tom das suas vozes era suave.

Tocou um telemóvel, a senhora atendeu, levantou apenas um pouco a voz e falou em francês, expedita, de forma alegre. Repetiu por três vezes merci, e continuou, veloz, na articulação das palavras – sinal de que, para si, a língua de Nicolas Sarkozy lhe era familiar…

O cavalheiro, entretanto, inquire sobre o espaço: é público, não? Respondo afirmativamente. Sabe, acrescenta, como tem um estilo completamente diferente do habitual, a minha esposa deduziu que fosse um “clube privado”. Em traços largos, explico que o comércio das bebidas era um pretexto para algumas actividades culturais - a exposição que tinham à sua frente era um exemplo disso mesmo.

Terminada a conversa, foi a vez da senhora parabenizar os autores das obras expostas e quem tivera o arrojo de colocar de pé o espaço como se apresenta.

Agradeci a generosidade do que foi dito.

Pergunto se estão de férias por estas paragens. Responde a senhora: de férias já estamos há imenso tempo, somos reformados, e viemos de Leiria passar uns dias a esta região, que desconhecíamos em absoluto, pernoitamos na Pousada do Convento do Desagravo e durante o dia damos uns passeios por aí. É muito lindo, tudo aqui à volta, a serra, tudo!

O encantamento do olhar, transmitia alegria, satisfação, prazer, felicidade na forma mais pura – que sei eu desse sublime sentimento?

Sempre de sorriso nos lábios, desenhados num rosto de enorme beleza, disse ao que vieram em concreto, desvendou o segredo, enquanto o marido, talvez um pouco envergonhado, olhava terno e meigo a “jovem” e bonita esposa: faço hoje oitenta anos, e o meu marido presenteou-me com este magnífico passeio.

Oitenta?

Não, não imaginava aquela figura esbelta, meã na altura e aspecto prazenteiro com uma mão cheia de “viçosas primaveras”, muito próxima do centenário que, acrescentei, por certo irá comemorar…

Pedi licença por breves segundos, saí, fui à florista Clara, logo na esquina, comprei uma rosa (que não paguei, por que a Clara conhece de longe o meu “vício” por flores e partilha comigo a sensibilidade do belo, e volta não volta tem destas delicadezas…), e com o meu melhor sorriso ofereci-a à bonita senhora – apenas uma lembrança com que procurei honrar o seu aniversário e o amor do casal

…Fiquei com a sensação de que a rosa vermelha “ganhou vida própria” e um “rosto” – “um dos olhinhos sorriu, atirou-me uma piscadela” e eu fiquei a ver o casal, de mão dada, rua acima, como se fossem dois adolescentes apaixonados.

29 de maio de 2007

"Mãe Coragem"

O texto é um pouco longo, mas justifica alguma atenção.
.......

Logo a seguir à revolução de Abril, o Teatro Ádoque levou à cena, em Lisboa, a peça de Bertolt Brecht ,“Mãe Coragem” – coisa nunca vista antes na capital do Império, por razões de fácil dedução!

A força da personagem transvaza de intensidade no apego de uma mulher à vida; os filhos e a sobrevivência (através do negócio) da família ,em tempo de guerra, não permitem demasiados sonhos! Ela pode ser tudo, menos “heroína”!

Margarida Neves, necessariamente noutro contexto, é outra “mãe coragem” que Brecht não teria desdenhado - como a Anna Fierling, fica-lhe bem o epíteto de “mãe do coração”.

MARGARIDA NEVES

Os cenários, estilizados ou não, a carroça que a ”Mãe” arrasta em cena, os filhos, que acaba por perder na guerra, os diálogos, as canções – eis parte da “estória”.

Para a Margarida Neves, o papel que lhe coube em sorte, na vida real, faz dela outra “mãe coragem”, ou não fosse mulher de carácter, capaz de aceitar com afecto, dedicação, e o sacrifício que se adivinha, a educação de uma criança carenciada de toda e qualquer qualidade de vida.

Tudo começou com a iniciativa da Joana, sua filha mais nova:

A principio as visitas eram espaçadas, começou pelo Natal, depois aos fins-de-semana; os laços de ternura foram ficando cada vez mais apertados, passaram-se seis anos - tempo suficiente para o Vasco André se transformar no filho que a Margarida nunca teve.

- “Um dia de Dezembro de 2001, a Joana perguntou se podia ir ao Centro de Acolhimento Temporário, em Tábua, e trazer um menino de seis anos para passar o Natal connosco, por sugestão do CAT. Disse que sim, com toda a naturalidade, e a partir daí a criança passou a fazer parte da família a “meio tempo”.

Ano e meio depois, o menino tinha os índices emocionais quase estabilizados e melhorara o aproveitamento escolar; a pedido da Assistente Social que acompanhava o processo de inserção do Vasco, ficámos como “Família de Acolhimento”. Iniciou-se o processo jurídico no Tribunal de Menores, e em Novembro e 2003 o Vasco foi transferido de Tábua para Oliveira. Tratámos de o matricular na escola em Oliveira, mas por razões várias teve de ir para Gavinhos. De manhã vou deixá-lo na escola, à tarde, depois de sair do meu emprego, vou buscá-lo, Felizmente tenho alguma colaboração para ele ocupar os tempos livres, principalmente da professora Belmira, inexcedível de atenções e cuidados no seu processo evolutivo.

Quando entrar para o Ciclo, espero que lhe seja dispensado tratamento semelhante porque as exigências escolares e de companheirismo são outras”.

Um menino vindo de longe

Vasco André Guedes Vicente, tem doze anos, frequenta a quarta classe da escola de Gavinhos, e nasceu em S. João da Pesqueira. Os pais, de origem humilde, não têm disponibilidades económicas para sustentar a família; um dos irmãos do Vasco, que também esteve no CAT de Tábua, foi adoptado, e é por aí que se ficam as memórias desta criança. Da sua nova família, diz que é constituída pela “mãe Guida, duas irmãs e uma sobrinha (as filhas e neta da Margarida Neves)”. Dos pais naturais não fala.

- Acredito que não tenha saudades dos pais, mas estou em crer que pensa neles, embora nunca tenha comentado o que quer que fosse. É traumatizante para qualquer criança o sentimento de desprezo a que está sujeito, como foi o caso: falta de carinho, alimentação, higiene e todos os outros cuidados básicos são demasiadas falhas no crescimento harmonioso de qualquer ser humano. O Vasco, infelizmente, carregava esse enorme fardo, pesadíssimo como se imagina; a nossa obrigação (minha e das minhas filhas) a partir do momento em que decidimos que ele passaria a fazer parte da família deixou de ter limites, e tudo temos feito para que ele se transforme num homem responsável e educado, honesto e trabalhador – não vamos exigir que seja “doutor”, mas será, estou certa, trabalhador exemplar, talvez “Bombeiro”, que é um dos seus sonhos de menino; para o aproximar da Instituição, vai começar pela Fanfarra”…

Necessariamente, o Vasco continua com acompanhamento científico, a pedido da mãe Margarida, que realça o excelente trabalho desenvolvido pela Psicóloga Patrícia, com quem o Vasco gosta de estar.

- “O menino quando veio para junto de nós tinha algum atraso no crescimento, por isso todo o trabalho que tem sido desenvolvido por quem lida de perto com o Vasco tem sido fundamental. Leva tempo até ele conviver com os jovens da sua idade com os mesmos objectivos, porque continua a existir uma diferença de comportamento em relação às outras crianças da sua idade. Com doze anos, já deveria frequentar outra escola e ter acompanhamento específico, mas infelizmente, no nosso País, é difícil para os pais de crianças inadaptadas recorrerem a outras alternativas no ensino”.

Margarida Neves consolidou o respeito e admiração de quem conhece o “caso Vasco” com algum pormenor, e elogia-se a coragem que, na sua opinião, ”não considera como tal”.

- “Eu e as minhas filhas fizemos o que as nossas consciências determinaram, e não contabilizamos os esforços económicos, físicos e mentais quando está em causa um ser humano carenciado. Faço a minha parte – espero que a sociedade cumpra com a sua”.

Adoptar o Vasco André não é prioritário. Segundo a Lei, a criança, a família de acolhimento e os pais naturais ficam sujeitos a avaliação de dois em dois anos. Nestes seis anos de “Mãe Coragem”, diz Margarida, as maiores alterações, francamente positivas, aconteceram na mente do Vasco – cresceu, evoluiu, fez-se “homem”, e lá mais para a frente, promessa de mãe, há-de conhecer os irmãos e os pais biológicos.

24 de maio de 2007

"Porto Seguro"



Coloco a frase no masculino e fico eu, por inteiro...
" Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira "
(Cecília Meireles)
(Surripiado à Teresa, quase família dos meus afectos)

15 de maio de 2007

Nós, os crescidos

Diz-se por aqui que está eminente o divórcio de um simpático e conhecido casalinho com quem mantenho excelente relação de amizade.

Como se calcula, o caso é notícia de primeira página - até a minha mãe, que passa das oitenta primaveras, veio, pedindo segredo, dizer-me para não comentar, mas fala-se, se eu sabia de alguma coisa; que não, respondi – e a conversa morreu assim mesmo.

Na verdade, a resposta foi uma mentirinha sem maldade.

Conheço a situação com algum pormenor, e lamento que pouco ou nada possa ser feito, na opinião de um dos intervenientes na futura contenda jurídica, para “salvar” uma relação de anos, “abençoada” com a existência de uma criança – é ela que me traz a terreiro na vontade de tecer meia dúzia de considerações muito minhas, mas sem direitos de autor, de tão comezinhas que são, ao alcance da lógica comum.

Quando o casamento começa a ficar preso por arames, a separação é, na maior parte das vezes, uma boa solução, se for equilibrada, respeitosa e civilizada. Na falta do amor, que fique amizade, respeito (sempre!), compreensão e o indispensável diálogo. Existem, como se sabe, situações onde nem sempre é possível levar o barco a bom porto, com consequências dramáticas

Cada caso é um caso, com leitura específica, e como não tenho formação científica que me permita argumentar com explicações filosóficas ou outras, falo do que sei, das minhas experiências …

O casamento talvez seja um jogo de “fortuna e azar”.Por mim, sou capaz de encarar o contrato matrimonial como o preâmbulo de uma peça de teatro em vários actos: nuns, a comédia toma conta do cenário; noutros, o drama desvirtua o texto original e fica sem actores à altura do enredo

Da plateia, vejo o casalinho à boca do proscénio; os dois vão sair de cena sem honra nem glória, depois do desempenho dos personagens ter merecido aplausos até ao segundo acto.

O estilo da peça talvez se transforme numa tragicomédia: a família assiste, impotente, e a criança, filha do casalinho desavindo, fica sem espaço para desempenhar o papel que lhe cabia por direito.

Na verdade, nós, os crescidos, pouco nos importamos com os efeitos devastadores de um divórcio antecedido de mentiras e enganos, com ou sem violência física, mas certamente com alguma tirania verbal - é da praxe que assim seja(?), na maioria das vezes. A gravidade é maior quando os filhos assistem aos mimos com que os pais se digladiam, mas esse pormenor parece não justificar moderação nas palavras e nos actos.

Mais tarde, as críticas da comunidade, a propósito do comportamento cívico de determinado jovem, podem ser injustas, se as culpas lhe são assacadas por inteiro. Nós, os crescidos, com facilidade sacudimos a “água do capote”, mas continuamos críticos, perversos e parciais na justeza das opiniões

O tema a que me propus tem girado à volta da ausência do amor no casamento e, por essa razão, sem os valores morais com que se construiu um mundo de sonhos.

Por outro lado, embora existindo amor, que dizer dos descasamentos sugestionados por bruxos e adivinhos?

Nem tudo se sabe a este respeito, mas aqueles (as) que não acreditam nos especialistas, sempre vão dizendo… que os há – na dúvida (?), deixam uma porta meio aberta; nunca se sabe… há atribulações que justificam todos os “meios” para descortinar o futuro!

Sempre existiram pessoas com determinadas faculdades para as quais não encontramos explicação, e a comunidade científica não tem respostas absolutas para o transcendental; mesmo assim, terminar uma relação amorosa, porque as cartas, os búzios, a bola de cristal ou outro tipo de suporte “espiritual” o determina, não lembra ao “diabo”!

Em tempos não muito recuados, uma decisão do estilo foi demasiado dolorosa para quem seguiu o conselho do (a) “vidente”.O matrimónio, na verdade, atravessara tempos difíceis, mas nem de boatos se alimentou a opinião pública; o casal dialogou e tudo parecia ter voltado à normalidade; o amor entre os dois e os filhos mereciam nova oportunidade.

Um dia, a senhora, que sempre fora mãe exemplar e esposa dedicada, tomou a drástica deliberação de abandonar a casa da família, marido e filhos, sem razões aparentes que o justificassem!

…Soube-se, mais tarde, quando uma depressão lhe minava o corpo e a alma, que os “astros”, pela voz de certo charlatão, tinham deixado aviso solene: o marido seria acometido de doença fatal e ela iria passar tempos difíceis, cuidando dele. Então, contou, faltou-lhe coragem para enfrentar a “enfermidade do companheiro”, e numa atitude de total cobardia, saiu de cena!

A consciência, primeiro num sussurro, depois aos “berros”, chamou-lhe nomes feios – tão feios que, diz, fizeram dela a imagem da vergonha!

Se o arrependimento tivesse asas, teria voltado ao aconchego do ninho no beiral, como as andorinhas na Primavera, mas era tarde de mais!

O ex-marido está de boa saúde e recomenda-se.

2 de maio de 2007

"Pavarotti" de penas

Forçado ao repouso, procuro cumprir com algum rigor a abstinência ao trabalho e às conversas longas; a dieta alimentar é sensaborona, mas o que mais me cansa, é estar de costas direitas, à espera que o tempo passe. A inércia nunca fez parte dos meus hábitos, mas como a ordem veio de cima, do médico que me assistiu nos HUC, faço-lhe a vontade, na esperança, como disse, de continuar por cá por mais uns tempos – sempre acontecem coisas novas, se não houver sabedoria, que haja conhecimento!

Na aldeia onde me "refugiei", o tempo parece mais vagaroso, por isso deixo o olhar perder-se no horizonte, visto do meu quintal: mimosas "perna-longas" de um lado, casas velhas desabitadas à minha frente, do outro lado, lá longe, um monte coberto de pinheiros, e atrás de mim a sombra da casa resguarda-me do calor primaveril.

No relvado, um melro anda aos saltinhos e em silêncio (e se é bonito o seu cantar!); faço um pequeno gesto, levanta voo e esconde-se na selva que invadiu o quintal do vizinho. Às mimosas, juntaram-se as silvas e arbustos que não conheço, cobrindo por completo as oliveiras. O melro deve ter o ninho nesta mata impenetrável…

Os pesticidas que os meus conterrâneos usam nos ataques às pragas e ervas daninhas (uma boa infusão de urtigas resolvia, não é "mestre" Zeferino?) afugentaram os pintassilgos que, noutros tempos, festejavam a Primavera com acordes de uma sinfonia, em homenagem à mãe Natureza. Uma vez, aqui perto, descobri um ninho destes passarinhos. Espreitei e vi três ovinhos de cor creme, pintalgados de cinzento. Dei tempo ao tempo e acompanhei a eclosão da ninhada.

Quando o vizinho (habituado a ir "aos ninhos" desde miúdo, coisa que nunca fiz…) entendeu que tinha chegado a hora da transferência, fez-se a mudança para uma gaiola, na esperança de que os pais, segundo ele, os alimentassem; estes, coitados, não gostaram que tivéssemos interferido na educação dos filhotes, por isso manifestaram-se de forma "ruidosa", sem se aproximarem da prisão, o que me deixou preocupado e, mais do que isso, bastante incomodado. Nem uma hora durou o martírio, porque, com paciência e jeito, devolvi os bebés à "casa" onde nasceram, felizmente sem consequências graves. Tempos depois, a família estava junta nos ramos da oliveira. Decidi que não voltaria a cercear a liberdade a nenhum animal que estivesse habituado à liberdade.

Para que a gaiola de grades brancas não ficasse vazia, comprei um canário de cor amarela – um autêntico tenor pela qualidade e pujança do canto! A partir de então, esta espécie de ave canora passou a fazer parte do meu mundo de sons. Agora, são dois os cantores que tenho na sala, cada um na sua gaiola. O mais atrevido é jovem e irrequieto; nunca lhe dei nome de gente, o que não aconteceu com o "Pavarotti", que habita a gaiola do rés-do-chão – baptizado com propósito pela Acácia à saída da loja da especialidade. Meses depois, a Acácia decidiu que lá em casa dois gatos não eram, de facto, a melhor companhia para o cantor de penas, ainda que este estivesse a salvo das arremetidas dos felinos, e pediu-me para o trazer para o jardim de entrada do meu local de trabalho.

As vidas do "Pavarotti" e do seu companheiro tenor eram tranquilas, pareciam "felizes" no cativeiro e as pessoas deliciavam-se com as "cantigas ao desafio". Um dia, a Acácia veio com uma novidade afiada na ponta da língua e quebrou em estilhaços o laço de cristal Lalique que prendia os sentimentos de ambos. Nessa hora, a sorte do "Pavarotti" ficou traçada: não voltaria à varanda do terceiro andar!

Agora, canta só para mim.

O Melro, esse insiste nos saltinhos, levantou vôo e leva qualquer coisa no bico. No meio daquela selva, quem se atreve a procurar o ninho?

17 de abril de 2007

Ai coração, coração!

A minha “estória” é semelhante a tantas outras: o coração achou por bem “ir de férias”, e vai daí “alertou-me” para a necessidade de repouso conveniente.”Partidas” destas não se fazem a ninguém, quanto mais ao dono do dito músculo, que (quase) sempre o estimou, deu-lhe amores e paixões q.b. e andava, agora, com ele nas palminhas, não fosse cair na esparrela de outra paixoneta…

De fonte segura nada se sabe sobre o futuro do SAP de Oliveira do Hospital. Talvez fique tudo como está (improvável!) ou então a responsabilidade (diz-se…) do atendimento nocturno passará pela competência dos serviços da Fundação Aurélio Amaro Diniz.

Há quem argumente que o Hospital oferece valências relevantes, logo, a mudança traria benefícios à população. A ver vamos…

Seria interessante recuar no tempo e contar a história do nosso Hospital, mas deixemos isso para melhor ocasião, porque o que importa, agora, é saber qual a solução encontrada. Obviamente, nem equaciono a hipótese de ficarmos sem assistência médica durante a noite, mas se tal vier a acontecer, é certo que algumas vidas humanas ficarão perante uma situação de elevado risco, principalmente se se vierem a verificar situações de urgência sem hora marcada – como me sucedeu na noite do passado dia 30.

A minha “estória” é semelhante a tantas outras: o coração achou por bem “ir de férias”, e vai daí “alertou-me” para a necessidade de repouso conveniente.”Partidas” destas não se fazem a ninguém, quanto mais ao dono do dito músculo, que (quase) sempre o estimou, deu-lhe amores e paixões q.b. e andava, agora, com ele nas palminhas, não fosse cair na esparrela de outra paixoneta…

Vá-se lá saber porquê, cansado de me aturar, atirou-me para o Centro de Saúde de armas e bagagens. Felizmente, o SAP ainda não recebeu guia de marcha (sorte minha!), e a equipa liderada pelo Dr Herdade tratou dos primeiros cuidados com eficiência e competência. Coimbra fica logo ali, a dois passos; na prestimosa e fundamental companhia do Enfermeiro Carlos, a viagem foi “rápida” e, uma vez mais, a sorte esteve comigo: cheguei aos HUC a tempo de tratamento capaz.

Durante o trajecto, viajei pelo mundo dos sonhos fantásticos (?), em tons de cinzento; mais tarde relacionei o “filme” com algumas leituras especulativas (?), interessantes apesar de tudo, imaginação fértil, digo eu, mas devo confessar o espanto por, de um momento para outro, as dores asfixiantes no peito terem desaparecido; veio um tempo, segundos talvez, de sossego maravilhoso, e não fora o chamamento do Carlos, talvez me deixasse ficar por ali!

-Fale comigo! – disse – e abanou-me o braço!

Regressaram as dores e a sensação de sufoco. Quando dei por mim, estava deitado numa marquesa, rodeado por umas quantas pessoas vestidas com batas de cores diferentes.

Os dias que passei na Unidade dos Cuidados Intensivos Coronários foram “óptimos” – nada a dizer do tratamento vip com que fui obsequiado; porém, ficaria de mal com a minha consciência (e o meu coração…) se não trouxesse à ribalta o nome da enfermeira oliveirense Sónia Nunes pela gentileza (à sua competência profissional, e das restantes colegas, nota máxima!) das suas atenções, a lembrar-me a cada momento os “trabalhos de casa”:

- Tem de mudar de vida, descanse mais, alimente-se bem, não faça isto, não faça aquilo…

Respondia a tudo que sim, claro – quem apanha um susto destes (ai coração, coração!) só pode dizer ámen a todas as recomendações.

Entretanto, em Oliveira, o Ricardo Brito vai ao leme dos barcos de ambos com jeito e algum sacrifício: de manhã nos computadores, ao meio dia de serviço aos cafés, volta à informática, e à noite regressa ao “local do crime”, que é como quem diz, ao barzinho onde me deu a macacoa! Enorme amigo este “filhote”, que adoptei pela via do amor fraterno, vai para sete anos…

Naquele dia, se o João Paiva tivesse sido multado por excesso de velocidade, quem pagava a multa era eu - foi o João que me conduziu ao Centro de Saúde num abrir e fechar de olhos. Amigos destes, felizmente tenho mais, muitos mais, e o Ritual deve ser o único bar do mundo onde esses amigos se servem, levantam a loiça, e ainda pagam a conta!!!

A partir de agora, vou preocupar-me mais a sério com o futuro do SAP da minha cidade, não vá o diabo tecê-las e eu ter de ir às pressas para Seia ou Arganil - a sorte também se procura… quando a assistência médica está a dois passos; de outro modo, a viagem é capaz de ter só um sentido

9 de abril de 2007

Morrer devagar...

...
Confirmo: é possível morrer de amor, embora devagar!
Foi na semana passada.
"Testemunho" que a morte (?) não tem nada de negro - só não vi a luzinha nem o túnel, fiquei-me pelo cinzento. Sem dor nem tristeza.
Não me deixaram seguir viagem...
Um dia conto mais.
Talvez...

27 de março de 2007

"Morrer de amor"

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"...Sempre tinha julgado que morrer de amor não passava de uma liberdade poética.Naquela tarde, de regresso a casa outra vez sem o gato e sem ela, verifiquei que não era só possível morrer, mas que eu próprio, velho e sem ninguém, estava a morrer de amor.
Mas também me apercebi que era válida a verdade contrária: não teria trocado por nada deste mundo as delícias do meu pesar".
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Gabriel Garcia Márquez
"Memórias das minhas putas tristes"