27 de março de 2007

"Morrer de amor"

...
"...Sempre tinha julgado que morrer de amor não passava de uma liberdade poética.Naquela tarde, de regresso a casa outra vez sem o gato e sem ela, verifiquei que não era só possível morrer, mas que eu próprio, velho e sem ninguém, estava a morrer de amor.
Mas também me apercebi que era válida a verdade contrária: não teria trocado por nada deste mundo as delícias do meu pesar".
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Gabriel Garcia Márquez
"Memórias das minhas putas tristes"

21 de março de 2007

Fim de festa


..


Queria ver-te nua
e da alma despida
na rua,
perdida...
Em gozos celestiais,
êxtases de loucuras
e orgias de entontecer,
banais seriam as tuas graças
- desventuras talvez!
E eu, rosto enxuto,
braços cruzados,
a ver morrer aos poucos,
de vez,
a alma, o corpo,
a tua imagem,
sem coragem
de oscular em fim de festa
o pouco que de ti resta....

...

Desenhei este amontoado de palavras ainda a censura ditava leis de azul, daí que não tivesse nascido em letra de jornal - aconteceu mais tarde, e anda por aí numa colectânea, pomposamente intitulada de "Novos Poetas".

Fica na leitura de quem merece lembranças...

8 de março de 2007

Falta uma no "bouquet"


Comemorar “dias especiais” à escala dos grandes acontecimentos nacionais ou internacionais só faz sentido pela visão comercial implícita aos ditos, o que não é novidade, mas como não havia talento nem engenho para iniciar esta croniqueta, fiquei-me pelos lugares comuns…

Sobre o “dia da mulher”, não entendo como pode ter o seu dia quando, de facto, elas, as mulheres, estão em maioria na sociedade, lideram importantes sectores da vida pública, e ainda há o pequeno pormenor de, no amor, pertencer-lhes sempre a última palavra, seja em que circunstância for. Refiro-me, naturalmente, às relações respeitosas e civilizadas entre o homem e a mulher.

Não duvido que, um dia, a “Mulher” governará o mundo pelos motivos que são óbvios. Por mim, sempre tive uma mulher por perto, reconheço-lhe importância no contexto familiar e nos afectos – pormenor a ter em conta, mesmo quando tudo não passa de conversa de retórica - como agora, dirão, mas não é! Adiante.

Claro que o assunto tem “pano para mangas” e eu não quero, de nenhuma forma, deixar que as ditas (mangas) fiquem demasiado compridas …ou curtas, e eu sem argumentos para continuar a “paródia”…

Que vivam todas as mulheres, hoje e sempre, principalmente as que me são próximas, embora me falte “uma” no bouquet para festejar o dia com a exaltação merecida.

3 de março de 2007

De volta às "Memórias"...

"... Descobri que a minha obsessão de que cada coisa estivesse no seu lugar, cada assunto no seu tempo, cada palavra no seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente ordenada mas, pelo contrário, um sistema completo de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza". Gabriel Garcia Marquéz

27 de fevereiro de 2007

"Memórias" de Gabriel Garcia Márquez

Comprei as "Memórias das minhas putas tristes", escritas pelo Nobel da Literatura colombiano.
Diz o autor, sobre o avanço da idade no homem maduro, que "...as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e continuamos a ver-nos de dentro como sempre tínhamos sido, mas os outros vêem-nos por fora...".
Quem olha de "fora para dentro", de facto nem sempre se apercebe que o "interior" não é, necessariamente, o reflexo do "exterior"...
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Sugiro a leitura das cento e vinte páginas desta obra magnífica.
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21 de fevereiro de 2007

Carnaval



















Segunda feira, por volta das 23 h.
Disse para quem estava:
- Este ano ainda não vi nenhum "mascarado".
- Eu já tentei tirar o "elástico" - desabafou alguém.
- Cá por mim não vou em "palhaçadas" - afirmou, categórico, depois do café, outro dos presentes.
De repente, todos os olhares se viraram para a porta da entrada - vinham "elas" com elas, de sorriso aberto.
Depois dos "bebícios", uma foto para a posteridade:
- Venha daí, junte-se a nós!
E lá fui eu, de sorriso malandro "afivelado"!

Aquela "loira"...

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(Fraterno abraço ao Fernando Lourenço e amigos )

Vento na "terra do nunca"

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Longe vão os tempos das grandes descobertas marítimas; bem andaram as majestades reais com os empenhos e engenhos guerreiros que se conhecem, a par de outros interesses religiosos e profanos.
Das riquezas de que se sabia, vieram cheios os porões das naus e caravelas; das outras (riquezas), a colheita justificou os martírios de marinheiros e soldados, Dominicanos, Jesuítas e outra gente de Deus. Mais bélicos, os galeões, ao sabor de ventos e correntes, faziam da força bruta a sua raça indomável, mas nem por isso tinham melhor sorte, e a sua altivez de contratorpedeiros de pouco lhes valia, perante as forças da Natureza, e iam ao fundo com a mesma desgraça dos seus congéneres cargueiros de bens e pessoas;
O panorama desses tempos, no arrojo do Homem, tem hossanas de poetas. É por via da escrita que conhecemos os feitos de glória com que se cobriam os viajantes nas suas lutas contra hábitos e costumes de outras origens - nas guerras com os gentios, "falavam" mais alto e mais forte as "vozes" das escopetas e fuzis do homem branco.Houvesse ou não ventos de feição, os navios sempre se fizeram ao largo.
O mar tem as suas marés, e as ondas, ainda que encapeladas, não eram obstáculo para quem se dispunha a entrar na História pela associação da inteligência, coragem, esperteza, e sabedoria empírica ou não. Os tempos mudaram, as pessoas também – só o mar e o vento continuam sendo mar e vento, proporcionando ao Homem as mesmas benesses de que nos continuamos a servir "gratuitamente"e em maior escala, porque estamos cada vez mais "espertos"e de inteligência refinada pelo conhecimento cientifico que espanta, tal a evolução das descobertas, como outrora…
Da água do mar, retira-se o sal e serve-se o líquido a contento das sementes que germinam na terra. Das marés, aproveita-se o vai e vem das águas para gerar energia. O vento é o ar em movimento que soprou as velas dos barcos de outros séculos e, agora, faz mover gigantescas hélices que, por sua vez, geram energia. Aos povos que têm a desdita de viver longe dos oceanos, fica-lhes reservada a felicidade de subir mais alto e olhar o mundo lá de cima, com o vento a enrolar-se mansamente à nossa volta, ou asfixiando-nos, como uma anaconda.
Infelizmente, a região do "meu" Concelho é quase plana; sem montes que mereçam a honra de montanhas, não temos altura nem estatura para tocar as nuvens, por isso, o vento que sopra sei lá de que banda, não traz a força suficiente para fazer rodar de forma constante aquelas três enormes pás que se vão desenhando um pouco pelas serras aqui à volta – do Açor à Estrela.
Ventos sem qualidade, pelo que li, é o que temos cá por baixo, nos arrabaldes, logo, a riqueza de ventos de feição não nos calhou em sorte – conclusão simples e sherlockiana. Sem a possibilidade de, pelo menos, um parque eólico que nos honre a estima, envaideça o ego e alimente o erário público, longe do mar e das marés, sem petróleo ou gás no subsolo (que se saiba!), só resta a barragem da mini - hídrica de Avô para nos tirar da pobreza franciscana, no que à energia eléctrica diz respeito… É pouco.
Perante factos, vou deixar de dizer aos amigos de longe que vivo na serra do Peter Pan e afiançar-lhe que moro na Terra do Nunca, onde o vento pouco ruge. O diabrete Capitão Gancho, esse continua, mauzinho, arrogante, inconveniente e …pirata! Quanto ao Sininho… plimmmmmm!

17 de fevereiro de 2007

As mudanças...

... deste sítio - espécie de almofada onde repouso sentimentos - são obra da Ângela,
amiga de muitas horas
e refúgio dos meus desabafos.
Devo-lhe o estímulo sempre renovado
e a disponibilidade do tempo que "perde" por aqui,
entre um chá de frutos tropicais, acordes de viola e conversas nos dois sentidos.
Que continuemos assim, fraternos, por muitos anos e bons.

14 de fevereiro de 2007

Hoje...


Abri as mãos, vieram "margaridas" que distribuo às senhoras de todas as idades que me honram com amizade fraterna;
para a Margarida, que tem nome de flor, uma rosa da cor dos seus intocáveis sentimentos. Fosse perto, e teriam outra matiz..
Eu, que pouco sei de mim, perdi a capicua que foi vermelha - agora ofereço "margaridas" ao café, sem segredos .

Falsa promessa



"Vai ter uma boa surpresa hoje. Talvez uma prenda ou um encontro inesperado"
- anunciava o horóscopo.

Mentiu!

6 de fevereiro de 2007

Fernando Vale e Miguel Torga "de braço dado"


Foi necessário deslocar-me às instalações da Santa Casa da Misericórdia de Arganil, o que nunca fizera antes, apesar das inúmeras viagens que, em tempos, me proporcionaram conhecimento profundo da Vila e das pessoas – de algumas pessoas – com quem partilhei ensinamentos e experiências inesquecíveis. O tempo de espera para uma conversa com figura proeminente da Medicina foi suficiente para um pequeno passeio pelas instalações da Instituição; vi obra recente, alterações arquitectónicas que redimensionaram espaços, e até o busto do Dr. Fernando Vale mudou de sítio, embora se mantenha visível em local digno. Não fui adiante, porque a memória "disse" para ficar e olhar – olhei!
O tempo de meditação foi curto, mas a imagem daquela figura que conheci de perto e me honrou com amizade fraterna, acompanhou-me pelo resto da tarde.
À esquerda de quem entra no Hospital, continua exposto o consultório de outro ilustre cidadão, de seu nome Adolfo Rocha, médico dentista de outros tempos, de quem a História pouco diz, mas eleva às alturas do sublime quando acrescenta o pseudónimo de Miguel Torga. Outra pausa na viagem e deixei-me ficar, mirando com minúcia os objectos.
"Desfiz-me do consultório. Mil circunstâncias adversas conjugaram-se nesse sentido. E adeus meu velho reduto onde durante tantos anos lutei como homem, médico e poeta. Ofereci o material cirúrgico ao Hospital da Misericórdia (de Arganil) onde durante anos operei, e o mobiliário à Junta de Freguesia de S. Martinho" – escreveu Torga em Junho de 1992
Fernando Vale e Miguel Torga - ali, quase de "braço dado"…
Do que conheço da obra do Torga, partilho com a "minha verdade" a sua opinião sobre o Homem, que diz ser "…por desgraça, uma solidão: nascemos sós, vivemos sós e morremos sós"! Revejo-me nesta frase e numa outra onde retrata o beirão (que também sou, de peito aberto aos ventos que sopram da serra do Açor), como teimoso e cabeçudo!
De Fernando Vale recordo anos, (apesar de poucos - é sempre pouco o tempo que os Mestres nos concedem!), e momentos passados na sua casa de Coja, onde eu (e os outros…), de pé e à ordem, atentamente, aprendíamos os segredos da palavra perdida, e desenvolvíamos o espírito de modo a construirmos, cada um por si, o templo interior da tolerância e da fraternidade. Por vezes, na sala, a meio da conversa, se havia incertezas, o Mestre, delicadamente, pedia: "…por favor, naquela prateleira, não se importa de me trazer o livro (…)" – e a dúvida morria naquele instante!
Por ali, tudo parecia justo e perfeito, cada coisa no seu lugar, cada lugar para cada coisa, que tanto podia ser um livro, jornais, documentos - um autêntico acervo de "sabedoria com alma".Imaginei-me, vezes sem conta, sentadado na cadeira usada por Miguel Torga, Moura Pinto, Edmundo Pedro, Soares…
Lá fora, no pátio interior, a videira que Torga plantou em 1954, continuava viçosa…
O tempo de espera, nas instalações da Santa Casa da Misericórdia, chegara ao fim. Nunca como naquele dia, que me lembre, o atraso de um médico foi tão "abençoado"!
De regresso a casa, remexi nas coisas que guardo com estima, folheei e li opúsculos de Carlos Teixeira e Luís Vale, "perdi-me" com os desenhos do Alberto Péssimo e deliciei-me com a poesia de António Arnault. Como dizia o Mestre, citando Dostoievski, só a beleza salvará o mundo…
Depois, tive o atrevimento de me abalançar a esta croniqueta.