11 de janeiro de 2007

Surripiado à Rita

"A miséria não necessita de nenhum talento, qualquer um pode consegui-la. A felicidade precisa de talentos, gênio, criatividade. Somente as pessoas criativas são felizes."

9 de janeiro de 2007

"Um Almoço de Negócios em Sintra"-Hoje, Gerrit Komrij escreveria este livro?


Terminei a leitura de um livro excelente, pela qualidade da escrita e das “estórias” que, no todo, retratam o povo que fomos num passado não muito longínquo; apesar dos ventos que vão soprando algum progresso, estas cento e sessenta páginas de prosa ainda reflectem um pouco do povo que somos – tão actuais em certos casos e situações que me revejo em algum lugar onde oito anos de distância pouco ou nada acrescentaram às imagens que o autor retratou com mestria.
"Um Almoço de Negócios em Sintra", "é um retrato em corpo inteiro de Portugal e dos portugueses…" à data da primeira edição; antes, já o autor deambulava por aí de olhos bem abertos, por isso não é de estranhar a sua perspicácia na análise de hábitos e costumes enraizados na vivência de um povo.
Gerrit Komrij, escritor, poeta, ensaísta e tradutor, holandês pelo nascimento, é "oliveirense" adoptivo. São da sua lavra as estórias reais que verteu para esta obra, editada e reeditada em 1999.
Possivelmente, o livro está fora do circuito comercial, por isso não há intenção de levar eventuais leitores à sua aquisição, o que não seria de todo inútil, confesso, porque a leitura de "Um Almoço de Negócios em Sintra" talvez contribuísse para cada um de nós esboçar, pelo menos, o seu auto-retrato. Estou certo que encontraríamos "pontos comuns" com algumas figuras ali descritas, não nos pormenores estéticos, mas perfeitamente identificados nas personalidades recebidas por herança e das quais não nos conseguimos libertar, vá-se lá saber porquê (ou sabemos?).
O senhor Gerrit está, no livro, contra os senhores dos guichés das repartições públicas, (e eu também - estamos todos!) porque, como relata "muito nas calmas, vão cavaqueando…"; salienta, pela negativa, a enorme burocracia de que somos vítimas, e dos bucólicos e ronceiros carros de bois (ainda circulam por aí?) poetiza uma imagem simpática, mas não compreende "o que é isso de existir uma alma portuguesa", talvez fatalista - tão fatalista como a força do fado que não consegue definir. É – escreve – sentimental de alto a baixo, sem nunca ser vulgar.
A aldeia onde mora o "nosso conterrâneo", escreve, é muito carente, mas o presidente de Junta de Freguesia (naturalmente, o livro no seu todo ou em parte foi escrito por altura de eleições autárquicas) não se cansou de fazer promessas "eleitoralistas"!. "Veremos se cumpre, sobretudo o alargamento do cemitério", mas o senhor Gerrit sugere ao eleito: já que "à menor lufada de vento, falta a electricidade. Dez, doze vezes, por minutos ou por umas horas. O senhor presidente da junta bem poderia pedir um reforço do distribuidor local". Hoje como ontem, afinal…
O incumprimento de horários é outro dos aspectos do retrato de ser português…
As casas tipo "maison" também não passaram despercebidas ao seu olhar atento, e um dos capítulos é inteiramente dedicado à "fealdade com que Portugal está salpicado".
Singelas citações da obra servem, tão só, para se ficar com uma ideia do manancial das observações descritas - algumas incomodam pela irreverência do conto, mas certo sentido de humor, adoça a prosa. Poderia "surripiar" do livro outros apontamentos interessantes, mas como estão inseridos em determinados contextos, seria pura especulação o acto em si. Fica, porém, o conselho: se tiverem oportunidade, não deixem de saborear as "estórias" deste "Almoço de Negócios em Sintra".
O País que temos, caminha em velocidade cruzeiro, de facto, mas lá vai fazendo pela vida e nem tudo está como era dantes, felizmente. Hoje, Gerrit Komerij escreveria este livro?
...
Gerrit Komerij é uma das figuras mais marcantes da vida intelectual holandesa. Em 1993 foi-lhe atribuído o prémio P.C. Hooft de Ensaio, um dos mais importantes galardões literários do seu país. É autor de mais de meia centena de obras literárias e contabiliza uma mão cheia de prémios prestigiantes; em 2000 foi eleito pelo público para ser o Poeta da Nação (Holanda), estatuto que é atribuído por um período de cinco anos. Vive em Vila Pouca da Beira desde 1984.

1 de janeiro de 2007

Nada mudou?

Acordei, olhei à minha volta, liguei a TV, procurei um canal que me mostrasse um tempo novo, mas está tudo na mesma - até as notícias.Bem, tudo tudo não estará ( digo eu...): daqui a pouco, se tiver de utilizar o dia, o mês e o ano na escrita, vou ter de alterar o dia, o mês e o ano deste novo tempo!
Afinal, sempre mudou qualquer coisa...
Aumentos da gasolina, água, pão, etc e tal? Mas isso é moda a que fui obrigado a aderir, mas não me sinto nada bem com a farda - é muito apertada, tolhe-me os movimentos.
Agora vou à vida, que a morte está certa. Para já, um valente e molhado banho com água bem quente.Entretanto, bebi um chá para limpar certas miudezas... interiores!
(Ouvi , não vi, na TV, que mataram um homem mau e, com tal acto, resolveu-se um pequeno problema de guerra no país onde ele tinha sido mau. Simples, digo eu, que não gosto de guerras e muito menos de armas de matar - nem de cordas com nó corrediço, que servem para apertar pescoços de homens maus.
Ups... na TV uma senhora diz: no Iraque a guerra continua!Verdade?
...Já esquecia de declarar que a Akákia não retribuiu os meus votos de muita saúde para este ano - uma ingrata, é o que ela é, paciência; bem me queria parecer que nada tinha mudado depois da meia noite...).
Feita a declaração do estilo, vou ao banho que se faz tarde.

21 de dezembro de 2006

Rosas de Outono

Vilaça
O frio nocturno deste Outono ainda não foi bastante para que os campos se cubram de um manto branco onde morrem os últimos botões das minhas roseiras.
Admiro a beleza de todas as rosas, mas aprecio sobremaneira o tom vermelho escuro das que crescem no meu quintal no tempo próprio, não agora, que nascem tardias, quase a medo, não vá a geada uma noite destas reduzi-las à lembrança da Primavera., o que acontecerá mais cedo ou mais tarde. Um dia destes trouxe do jardim uma dessas rosas de Outono com a intenção de a colocar numa jarra, como sempre faço – um luxo a que me dedico com inusitado prazer. Dada a fragilidade das pétalas, coloquei-a com muito cuidado no banco do "pendura" e fiz-me à estrada sob chuva forte. Os pensamentos teriam pouco sentido porque concentrava toda a atenção no tráfego, apesar de pouco intenso.
Na "estrada real", próximo do "sítio do costume", disse de mim para mim:"com este tempo, não há rameira que aguente a espera de eventuais interessados na aquisição dos seus serviços"!
Puro engano. Depois de uma curva, na berma da estrada, uma figura feminina, esguia, de mini-saia, acoitava-se sob um guarda-chuva. Do outro lado, estava outra, sujeita ao mesmo desconforto. Travei suavemente, o carro continuou a marcha mais devagar, e ao passar por aquela que estava estática junto à minha faixa de rodagem, cruzámos os olhares por breves segundos - tempo suficiente para outra decepção: "mais um que se limitou a olhar " – terá dito para com os seus botões.
Os meus pensamentos foram outros… Que "estórias" não teriam estas mulheres para contar, se lhes fosse pedida justificação para a entrega a tal profissão de riscos anunciados, morais e físicos? Creio que as carências económicas e falta de emprego vinham à cabeça de uma lista com outros itens por demais conhecidos, mas pouco aceites pela sociedade, que usa o prazer mórbido da rotulagem depreciativa como elas o fazem com o corpo: de forma rotineira.
A mulher com quem cruzei olhares tinha o rosto gasto pelo peso dos anos e, naturalmente, dadas as circunstâncias climatéricas, não estaria com a melhor das disposições para se enfeitar com um sorriso; por isso, talvez não conseguisse atrair cavalheiros interessados no negócio do prazer. Então, como num escaparate, expunha o que de melhor tinha para o enlevo da vista: duas pernas roliças e elegantes para excitar a cobiça.
Infelizmente, naquele dia, até o tempo fazia cara feia… Que ninguém me peça opinião sobre este modo de vida, porque, no meu jeito grave e solene, quando é caso disso, opinaria: sendo a prostituição uma realidade reconhecida como a profissão mais antiga da Humanidade (?), por que não obrigar estes agentes do sexo ao seu exercício no recato de quatro pareces e em condições de higiene e segurança? Dirão os eventuais leitores que os hábitos (não) fazem um monge, que isto é prática comum em qualquer parte do mundo, sempre assim foi e continuará a ser – é verdade, mesmo assim não altero o meu sentido de voto.
Não se discute a qualidade e a competência dos intervenientes e muito menos se fará a apologia do chamado sexo de luxo nesta croniqueta despretensiosa – sexo é sexo, seja ele praticado no requinte de um quarto de hotel, ou debaixo de um tecto de miríades de estrelas, ao ar livre. As condições de conforto, higiene e segurança, é que mudam - do pormenor do romantismo dos lençóis de seda a uma flor num solitário, e outros requintes a preceito, para que o negócio se assemelhe a um acto de amor. Regresso à rosa da minha companhia, durante a viagem. Embora frágeis, as pétalas mantiveram-se harmoniosamente juntas.
(Se fosse agora, teria feito uma paragem antes da curva onde perdi de vista a mulher de mini-saia e pernas roliças e oferecia-lhe a rosa de Outono – talvez ela sorrisse…com a minha prenda de Natal)
http://www.correiodabeiraserra.com/

18 de dezembro de 2006

14 de dezembro de 2006

ENCANTADOR DE "SERPENTES"


Carreguei os braços com dicionários e prontuários, abri caminhos inóspitos na Internet, consultei puristas da minha língua materna e um dia, hoje, resolvi dar por finda a busca do sinónimo da palavra PERSUASIVO. Afinal, os meus conhecimentos gramaticais não são tão superficiais como, erradamente, tinha concluído: dizer que alguém é (foi) PERSUASIVO, é chamar-lhe… talvez HIPNOTIZADOR – um verdadeiro mágico!
Agora a sério: quem PERSUADE determina a vontade de alguém; leva alguém a crer, a aceitar ou a decidir (fazer alguma coisa); induz, instiga, convence, aconselha, etc – segundo "soube" nas fontes a que recorri.
Confesso que não me reconheço com tais predicados, e não me imagino ENCANTADOR DE SERPENTES!
Todo este arrazoado desfaz, a meu ver, a insigne ilusão do amor apaixonado sem retorno. À falta de argumentos, o recurso é, por norma, a invenção de situações análogas aos sentimentos superiores, mas que não passam de retórica justificativa de actos impensados – importa é sair de “alma lavada”, ou fazer como Pilatos, depois de entregar Cristo aos carrascos.
A que propósito vem toda esta confusão de palavras? Simples: apeteceu-me confundir as minhas próprias ideias e fazer deste texto um jogo, e desafio alguém para o dito – basta que sejam descodificadas as pistas que deixo nas entrelinhas e as meias palavras que ficaram por dizer, e facilmente se acerta no alvo, o que garante, à partida, reconhecimento público pela perspicácia, meia dúzia de caramelos e dois bilhetes para ouvir na RFM o Juanes cantar La Camisa Negra !

10 de dezembro de 2006

Coerente, mas pouco

Há sempre nostalgia quando fala dos tempos vividos em África de forma tão natural como as imagens do pôr de sol, sobretudo quando a mistura das cores tem pinceladas de mar.
Não há volta a dar a este amigo, que se assume como "sonhador", e ainda que a vida, agora, lhe sorria desafogada, insiste em continuar preso a um passado, que me afiança "feliz", e toma para si exemplos de vida que nada têm a ver com o tempo presente. Acredita, o meu amigo, que os pequenos nadas aconchegam sentimentos e é por via deles que se atinge (?) determinado karma: "qualquer acção tem uma reacção de força e sentido contrário; se praticamos o mal, a acção retorna na intensidade equivalente ao mal causado." – cita com alguma frequência, como se a filosófica frase resumisse a essência da sua própria vida… e dos outros!
As palavras, escritas e pronunciadas deste modo, podem alterar comportamentos cívicos e morais quando adaptadas por inteiro nos relacionamentos interpessoais, e este meu amigo de longa data, faz por ser coerente com as suas "filosofias", embora, como reconhece, nem sempre disso é capaz, mercê das renúncias a que se vê obrigado a cada passo – a sociedade em que se movimenta tem mais de hipócrita do que leal, e lamenta-se que lhe custa curvar a cerviz, mas pouco (ou nada…) pode fazer para "alterar o sistema" – diz!
Sobre os partidos políticos, não se identifica com a "direita" (existe?), mas também não se considera da "esquerda"(?), e não se revê, de forma nenhuma, na acção política do "centro". É aqui que todas as conversas se cruzam, e as discussões de cariz político/partidário, embora civilizadas, nem sempre têm final feliz, isto é: se ele se aproxima das ideias anárquicas de Buenaventura Durruti, figura da Guerra civil espanhola, ou do famoso Che Guevara, por que não se assume como tal? Terá ele as mesmas convicções?
A Constituição da República traça muito claramente as regras com que somos governados, direitos e deveres de cidadania, e não me parece que o meu amigo encontre no Documento escapatória para os seus devaneios, mas enfim, lá terá as suas razões quando argumenta que nem tudo o que está escrito se cumpre por inteiro, etc, etc…
O anarquismo, enquanto teoria política, de facto, não significa o caos ou a desordem pública. O que me parece é que este amigo anda com os neurónios às avessas, e "lá dentro" (do cérebro) a confusão é total, de tal modo que não encontro nem uma pitada de coerência na sua propaganda "revolucionária" – porque de revolucionário tem muito pouco ou nada. Quando ele intervir na vida da comunidade com arreganho, na tentativa de fazer diferente, para melhor, "revolucionando" o marasmo em que se diz envolvido, então tiro-lhe o meu chapéu.
Como pode um "revolucionário" não assumir as suas diferenças e levá-las à prática? Se lhe basta o cabelo comprido e barba de três dias, então… é mesmo um exemplo acabado do Homem inquieto e descontente que há-de mudar o curso da História! É nesta encruzilhada que me amofino com o meu amigo. A sua nostalgia, é bom de ver, tem resquícios de um certo colonialismo bacoco, já lho disse, olhos nos olhos. E quanto ao seu espírito "revolucionário", estamos conversados…
A citação que reproduzo mais atrás, meu caro, é uma espécie de avestruz que, dizem, perante o perigo, esconde a cabeça e deixa o resto do corpo à mercê do inimigo. Coerente…mas pouco, o meu amigo!
(http://www.correiodabeiraserra.com)

1 de dezembro de 2006

Jaime MARTINS BARATA

Numa velha lenda nórdica,
um cavaleiro pede a um espelho mágico
que lhe mostre
a mais bela cidade da Europa.
E o espelho apresenta
aos seus olhos assombrados
a vista de Lisboa, a Grande,
como antigamente lhe chamavam.

"A obra de Martins Barata
é extraordinariamente numerosa e variada:
selos e moedas que circularam durante anos,
ilustrações, ferramentas, brinquedos,
livros e publicações, pinturas monumentais
(dispersas pelo país e estrangeiro).
Martins Barata foi um verdadeiro
homem da Renascença
"
- está escrito sobre esta figura fantástica, que desconhecia. Tive o privilégio de conhecer uma anciã que lhe serviu de modelo em algumas das suas obras.Fascinante!
Aconselho uma visita.

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27 de novembro de 2006

21 de novembro de 2006

A rapariguinha

A rapariguinha dizia à amiga que estava grávida.
Como ambas são demasiado jovens, ouvia as conversas de passagem e não lhes dava crédito.A dado momento, percebi que o assunto era mesmo sério; então, fiz uma pausa nas minhas idas e vindas, entre cafés e sumos de laranja, e perguntei:
-Mas... estás mesmo grávida?
-Estou com um mês, é verdade.
-Qu idade tens?
-17.
-E o teu namorado?
-Tem a minha idade.
A amiga entra na conversa:
-Anda por cima esta parva engravidou por que quis!
-Foi? - perguntei.
-Foi pois - respondeu de imediato, com ar feliz, como se tivesse subido ao Everest, e conta:
-O meu namorado enganou-me com outra e eu, como queria ficar com ele, engravidei para o prender.Em minha casa ninguém queria acreditar, nem ele, mas fui fazer os testes à farmácia, e quando os mostrei é que viram que não estava a brincar!
-És "muita stupida" - atira-lhe a amiga, com ar de desprezo.
A rapariguinha encolheu os ombros e continuou a sorrir enquanto se despedia da amiga.
-Bem, tenho de ir. "Xau" . Porta-te bem.

15 de novembro de 2006

Posso ajudar?

A Mariana trabalhava na Livraria Académica e usava os cabelos compridos.
Perdi o conto às visitas que fiz à livraria, na esperança de ser ela a ouvir os meus pedidos de coisas simples: lápis, borrachas, papel cavalinho, aguarelas...
Quando não estava necessitado de nada, teimava em continuar cliente de leituras, embora curtas. Foi assim que conheci Mário Sá Carneiro, António Botto, Alves Redol e tantos outros autores portugueses
A estratégia era simples: para que a Mariana viesse ter comigo, entrava na loja e ia direitinho à estante das obras menos procuradas. E ela vinha, mesmo depois de se ter apercebido da marosca, com um sorriso malandro.
- Posso ajudar?
Poder, podia, mas a ajuda necessária não tinha nada a ver com esclareciemntos sobre as obras expostas.Talvez se falasse do tempo que fazia lá fora, do "single" musical em voga ou de qualquer coisa que me fizesse ganhar coragem, eu teria saído do canto da minha timidez e declarava-me... "apaixonado"!
A Mariana foi sempre muito profissional no seu papel de balconista e nunca passou do cumprimento de circunstância e da frase sempre igual:
-Posso ajudar!
Eu, como não tinha asas para voar para outras conversas, fiquei cativo da timidez e ela nunca soube da minha "paixoneta"... adolescente.