31 de outubro de 2006

"Pavarotti"











No meu "jardim de entrada" está prisioneiro um canário amarelo que, parecendo alegre, tristemente canta a saudade.

27 de outubro de 2006

Arre-burro


Que eu saiba, há, pelo menos, um burro de quatro patas que passa debaixo da minha janela, arrastando ronceiramente uma carroça, velha como ele, o burro.
Se o dono tivesse acompanhado o progresso, por certo a carroça teria rodas com amortecedores e pneumáticos, mas como não tem, acordo logo pela manhã, bem cedo, com um barulho sem melodia; não sei onde começa, mas vem de longe, e vai chegando perto, mais perto, sempre mais perto!
Saint-Exupéry, no "Principezinho", é muito mais romântico quando imagina a felicidade da raposa:
-"... Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz.E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sinto...".
Por mim, não posso ser como a raposa, ansioso pela carroça, que o burro puxa sem pressas, numa hora madrugadora para quem se deita sempre no dia seguinte. O ruído das rodas, revestidas a aço, como chegou também desapareceu: devagar, mais distante, e perde-se no silêncio. Depois de encontrar o jeito, volto a adormecer. Interromper o sono com gosto, só quando a Filarmónica vem, estrada abaixo (a banda de música, que me lembre, nunca subiu, sempre desceu a minha rua…), a tocar uma marcha, mais uma menos afinada, com os "pratos" e o bombo a sobressairem dos clarinetes e da requinta, por vezes dos contrabaixos - só as trompetes lhes fazem frente, mas nem sempre!
Duas vezes no ano, é certo e sabido que tenho a Filarmónica debaixo da minha janela num simpático cumprimento de "bons dias", e aí sim, gosto do som que vem de longe, na minha mente, acordo devagar, e delicio-me. Se regresso ao sono, as voltas nos lençóis são suaves, e os sonhos, se os houver, desejo-os com final feliz.
O sossego da noite, na minha aldeia, não tem preço; o vento, quando vem, sopra de modo diferente nas "portadas" das janelas e a chuva parece acariciar os cocurutos das árvores. O Sol, se eu quiser, beija-me o rosto através da janela. Como os vizinhos moram mais para os lados, não fazem sombra nem barulho, o que, convenhamos, é uma bênção dos céus.
O burro, ao fim da tarde, larga a carroça perto do aconchego do curral, e posso contar pelos dedos de uma mão as outras viaturas com motor que passam debaixo da minha janela. A pé, são poucos os viajantes que se fazem ao caminho, o que não abona o censo da última década.
Estava a cogitar sobre todas estas vantagens que a minha aldeia me proporciona, e sou invadido por um arrepio, da cabeça à ponta do dedo grandão do pé.
- Ups… de onde vem isto? – pensei, tremelicando.. Ah, a solidão de quem passa dia após dia ouvindo o silêncio da minha rua e das outras ruas, quase desertas de vida, e o medo que me apoquenta quando me imagino naquele casarão, sozinho, um dia…
O burro, pela lógica da (sua) vida, mais cedo ou mais tarde, entrega a alma ao Criador; a Banda Filarmónica definha a olhos vistos…isso significa que vou ter ainda mais silêncio, não tarda! Se o barulho, agora, tem este "ruído", imagino como será daqui a uns tempos…
… A não ser que eu vá "desta para melhor" antes do burro deixar de ter forças para andar com a carroça a reboque, ou se fine de velhice. E quanto à "banda", até com meia dúzia de músicos se toca uma marcha fúnebre!
.'.

23 de outubro de 2006

O retrato


Tenho um retrato de mim à vista, mas não me reconheço quando o fito, pausadamente ou de forma fugidia. Nos traços do rosto não há sinais de caminhadas e nas pupilas não vislumbro lampejos de felicidade; até o meio sorriso pouco diz…
Houve um tempo de balanço, quando as esperanças definharam, com resultados positivos. Agora, se desnudo a alma e a deixo por aí, carpindo mágoas e mendigando gestos de afagos, fico sem saber quem sou, quem fui, e quanto ao dia seguinte, não vislumbro mudança de opinião – apenas a expectativa do que possa suceder entre a manhã e a madrugada, faz com que fique atento.
Se o retrato pouco diz (?) e a alma inquieta não veste sinais de esperança, que farei com este corpo?
As palavras, arranco-as do mais recôndito refúgio e espalho-as por aí, a esmo - talvez alguma germine em terra árida, fecundando-a de emoções, embora tardias…
Perante as dúvidas do ego, decido-me pela descoberta do outro “eu”, ao espelho, mas não vejo o cordão umbilical que me amarra à vida.
Terei passado ao Oriente Eterno? Se assim é, o corpo, que não tinha utilidade visível, está no sítio certo – o tempo se encarregará de apagar das memórias as minhas coisinhas miúdas, e talvez ganhe rótulo de “bom sujeito”, mas pouco lúcido.
A alma, quero-a imortal, mas sem lembranças do último adeus.

19 de outubro de 2006

Falta de "gravidade"!


O Maio (a) foi de abalada até à Tunísia com uns amigos ( uma daquelas viagens de fim de
curso, espécie de "bónus" dos papás por terem sido meninos muito bem comportados e óptimos estudantes; eu, que os conheço de "ginjeira", não abonava a decisão dos progenitores, se tivessem vindo "investigar as vidas" dos elementos do grupinho, principalmente do Maia e do Albano - outro amigão do peito - meio escondido pela bandeira. Das meninas, não falo - essas sim, nada a apontar...) e descobriu em pleno deserto um morro onde estava plantado o símbolo do nosso País.Quem terá sido o autor? Português? Talvez, mas com a falta de "gravidade", provocada por uma qualquer beberagem africana, errou na colocação da bandeira. Sorte do meu especial e grande amigo Maia (o) que, com esta fotografia ganhou um telemóvel num programa de TV.
Sortudo!!!

16 de outubro de 2006

"Desinventei" !!!

"Você, que inventou a tristeza, ora tenha a fineza de desinventar..."!
Disse a Margarida, que tem nome de flor.

E eu, "desinventei"!

15 de outubro de 2006

Possivelmente (2)...

Hoje aprendi que:
"Uma das regras da sabedoria diz-nos que os grandes amores são irrepetíveis. E nunca devemos voltar aos sítios onde fomos felizes."
(Autor?)

... E também li parte da escrita de Antoine de Saint-Exupéry:
"...
- Eu não sou uma erva - protestava suavemente a flor.
- Desculpe...
- Dos tigres não tenho mesmo medo nenhum.Agora das correntes de ar...Não terá por aí um biombo?
"Já é azar, para uma planta, ter horror às correntes de ar", pensara o principezinho."Mas que flor mais complicada!"

... Por fim , encontrei "isto":


Por que espero,
se desespero?
E por que fico,
se quero ir?
E por que vou,
se quero ficar?
E por que insisto e não desisto?
Isto é loucura ou desventura?
Inconsciência ou pertinência?
Sabedoria ou estupidez?
...Mania?
Talvez...
Agora, que nada sei de mim,
fico assim, quedo,
e em segredo
desespero.
Insisto?
Não - desisto!
(cr 09/06)

12 de outubro de 2006


À boca do proscénio faço uma vénia e retiro-me de cena.
Acabou a farsa sem apupos nem aplausos.

9 de outubro de 2006

Como em Agosto...

Posso não te querer, mas quero-te muito!
Por isso, invento-te
Numa das rosas que apanho no quintal,
Quando as há;
Se não há, passo pelo canteiro de Agosto e imagino-as da mesma cor,
Quando as houver,
Em Agosto.

4 de outubro de 2006

Possivelmente...

É tarde nesta madrugada que tem quase horas de sol.
Medito sobre as conclusões que vêm em catadupa.
Frágil, o espírito parece que dói.
O corpo gasta-se pelo peso das luas cheias, sempre redondas.
A minha fortuna é tempestade do que sou em constante desalinho.
Entre o pouco e o nada, fico sonhador do que não fui capaz, teimoso e irreverente, submisso às vezes – apaixonado, sempre!
Penhoro a palavra que fica entre a honra e a safadeza, numa tentativa de adivinhação de uma noite de carícias e desejos, sem pecado nem mácula.
Faço leilão de mim, mas guardo um cordão de prata fina que me prende ao desconhecido da alma.
Se há desafortunada existência, então o pensamento continuará em viagem com destino incerto.
Possivelmente, não chegarei ao fim da caminhada a que me proponho.
Possivelmente…

1 de outubro de 2006

Haverá bruxas?

Quando a vida corre mansa e suave, que pensar das "forças ocultas" que a fransformam num caos?
Troco as dores da alma pelas chagas do corpo...
...
(Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem ... )

30 de setembro de 2006

Voltei ao parque

Fui ao parque porque tinha a “certeza” de que te iria encontrar!
Não estavas… mas calcorreei os caminhos que foram “nossos”. Sozinho!
O parque estava vazio de pessoas e ainda bem – não era justo alguém incomodar o solitário “regresso ao passado”…
À saída, vi uma figura miúda, ia devagar, cabeça baixa…
Eras tu!
Aproximei-me.
- Olá - disse eu.
- Olá - disseste tu.
- Como estás?
- Bem, e tu? Por aqui?
- “Sabia “ que te encontraria!
- Ando a espairecer, a tentar encontrar-me…
- Entramos um pouco?
- Pode ser.
Falámos de nós, sentados noutro banco, uma mesa entre os dois, olhos nos olhos.
Deixei que as emoções acumuladas se transformassem num regato de águas mansas e tu pedias-me que as estancasse. Os rios começam assim, com pequenas gotas...
No silêncio das minhas palavras, olhava os teus lábios secos e finos; os teus olhos eram duas bolas de gelo; o teu sorriso estava triste.
As coisas que dizias não vinham da alma...
Impossível - não eras tu!
Viajámos juntos no regresso, quase como “antigamente”…
Despedimo-nos com um beijo em cada face.
Estavas fria e eu senti frio.
Gelei!
Foi importante ter-te encontrado nesta tarde fria de Outono.
Qualquer dia volto ao parque.
Sozinho.
…Talvez encontre por lá a raposinha que gosta de rosas vermelhas

29 de setembro de 2006

A última viagem


Procuraste um porto de abrigo para as tormentas das tuas viagens e eu fui o cais do sossego.
Um dia, refeita dos males maiores, fizeste-te ao mar de alma lavada.
No cais deixaste o meu olhar fixo no horizonte onde te perdi.
Acenei num derradeiro adeus, estavas demasiado longe – sempre estiveste demasiado longe, mesmo quando te refugiavas na minha bonança – e não deste conta deste mar de lágrimas salgadas.
Infelizmente, não fui um porto seguro.

27 de setembro de 2006

Sem anexos

Um amigo brindou-me com esta delícia ; decidi publicá-la pela "graça" de umas quantas palavras e por tudo quanto se pode "ler nas entrelinhas".
Se a moda pega...

...

Carta aberta a um inventor de boatos

Caro senhor. É do meu conhecimento que procura saber pormenores sobre a minha pessoa. Infelizmente, limitou-se à “feira do boato” (um mau costume, como sabe) e não foi à fonte de águas cristalinas onde poderia saciar a sede, e nem a sua avidez por presumíveis factos do meu próximo passado teve o efeito desejado. Se tivesse percorrido meia dúzia de metros na minha direcção, tínhamos chegado à fala de forma educada e eu dar-lhe-ia as informações pretendidas, para contento e descanso da sua delicada, excelsa e prendada esposa e da sua alma gémea – o meu caro e inquisidor senhor; como não o fez, anexo o meu currículo de cidadão impoluto, nºs do BI, Contribuinte e conta bancária, certidão de nascimento, registo criminal, e ainda uma declaração da vizinhança onde se afirma que sou bom rapaz, pouco dado aos copos e às noitadas. Junto, ainda, atestado médico, isento de doenças contagiosas ou outras, e uma declaração onde afirmo, pela minha honra, que o meu único vício é estar apaixonado pela sua filha. Não lhe peço a mão da minha amada porque já a tenho – a mão e o resto…”!