5 de agosto de 2009

A “teoria” da chiclete


O regresso aos discos da Banda do Porto “Táxi”, surge num momento óptimo para animar a campanha eleitoral, que não tarda.
É interessante estar atento à letra do tema “Chiclete” para que o possamos “encaixar” nas coisas mais comezinhas do dia a dia, incluindo a política caseira agora que os partidos se desdobram na construção das listas concorrentes às eleições Autárquicas.
Há uma “estranha sensação” de que para alcançar o poder numa modesta junta de freguesia, vale (quase) tudo, desde importar eleitores, através do recenseamento de residentes eventuais durante fins de semana e/ou férias, à troca de elementos que ainda pertencem à gestão das juntas de freguesia por outros, surripiados à oposição ou não (aqui aplico a minha teoria da chiclete, “… que se prova, mastiga e deita fora, sem demora…”, numa analogia “perfeita”) – importa é que façam parte de um agregado familiar onde se contabilize o maior número de potenciais (e solidários) eleitores, ou de pessoas que “garantam” determinados interesses… pessoais!
Não acontece qualquer ilegalidade na prática destes actos. O que está verdadeiramente em causa, na minha óptica, é a ausência de carácter de quem usa as premissas que a Lei confere, no que ao recenseamento diz respeito, falseando a verdade pela assunção pública de um certo pedantismo, que o povo alimenta, de forma semi-inconsciente, quando lhe falam com palavrinhas mansas…
Por outro lado, ”…de há uns anos a esta parte, o que se nota, em algumas situações, é o regresso de um certo tipo de caciquismo disfarçado em representação democrática. Voltou a “cultura do medo”, fazem-se ameaças veladas “à boca pequena”, promete-se o que é de Lei junto dos mais idosos – logo, mais sensíveis – como se tratasse de uma benesse pessoal, garantem-se empregos invisíveis… “ – escrevi de passagem num outro local, e acrescentei: “…Mais do que ser militante de um partido, por vezes dá “um certo jeito” aos candidatos liderar uma instituição, sobretudo se for de carácter social, ou ser empregador…”!
Infelizmente, esta realidade – entre outras! - afasta os jovens da militância partidária. Dizem eles que “os mais velhos são uns troca-tintas”, que falta competência à maioria dos eleitos… o rol de acusações é extenso!
À eventual pergunta sobre a revitalização (?) de determinado partido, cujo candidato “usou e abusou” da (minha) teoria da chiclete, teria respondido que, no caso, os maus exemplos do líder felizmente não são seguidos pelos “Jotas”, mais esclarecidos e informados e, por isso mesmo, nada motivados para a militância partidária!
Pintam-se os ideais com as cores do arco-íris, mas nem assim se adivinha “bom tempo”…
E como tudo o que é coisa que promete/ A gente vê como uma chiclete…” – cantam os “Táxi”.

22 de junho de 2009

“Palavrões”


Seis horas no hospital à espera de uma consulta, são horas a mais, mas não havia volta a dar-lhe, e quem espera, desespera. Por vezes, quem espera tem um “bónus”, o meu foi uma consulta.
O médico que me recebe é simpático e deve ser muito competente; não apresento queixas, mesmo assim entendeu que o colesterol precisava de uma ajudinha para vir por aí abaixo na escala dos valores que considera ideais para quem tem problemas cardíacos, como é o meu caso. Vai daí, alterou-me a medicação e foi explicando, tintim por tintim, como serão úteis as diversas substâncias que compõem os novos comprimidos, possivelmente minúsculos, como eram os anteriores.
Fixo a posologia, mas quando percorreu caminhos enviesados para o meu entendimento, limito-me a ouvi-lo pronunciar “palavrões” do estilo: Rosuvastantina, Ezetimiba, Perindopril…! Continuo “sem fala”, mas se pergunta “Percebeu?”, quer que lhe responda com um sim, não, ou talvez, e eu sorrio, que é a melhor das respostas quando se é leigo no assunto. Acho que todos nós, os doentes, e mesmo aqueles que o não são, devemos responder sempre ao médico com um sorriso. O doutor não se obriga a grandes explicações, se dissermos “Não, não percebi patavina”, e se dissermos “Sim, senhor doutor, percebi”, ele sabe que estamos a mentir, mas ficamos por ali mesmo, pela nossa ignorância. Portanto, sorrir em tons de amarelo é uma boa resposta (se fosse verde, era sinal de que tínhamos percebido; vermelho, seria o mesmo que dizer “Troque isso por miúdos e numa linguagem que se perceba”).
Um sorriso, como se vê, é a salvação de quem está perante alguém que sabe mais do que nós sobre qualquer coisa, a não ser que estejamos numa sala de aula, onde o mestre tem por missão ensinar; aos alunos, só resta estar atento à matéria, nada de assim-assim no entendimento, como sucedeu há dias, durante uma lição sobre gestão da floresta, que dá sempre jeito a profissionais e a ignorantes (como eu!). Quando a engenheira Tânia falou da Pseudotsuga – um “palavrão” que em alguns casos assume grande porte, se o associarmos a uma espécie de “pinheiro” de jardim – fiquei a saber que é uma mentira apontar a resinosa como familiar do Pinus pinaster, o “nosso” pinheiro bravo”. Tem pinhas, sim senhor, mas isso não lhe confere qualquer parentesco!
Seis horas numa sala de espera, dão para imensa coisa: ler o jornal, partes de um livro, ouvir as conversas dos vizinhos, ou passear o olhar pelos rostos de quem está por ali… à espera. Aproveitei o tempo consoante o cansaço que proporciona a incómoda cadeira; se me concentrava na leitura, de quando em vez, ficava em alvoroço com uma voz de mulher que vinha do altifalante. Era timbrada, e os decibéis, acima da média para o local, preenchiam “violentamente” o espaço.
Ao meu lado, uma senhora, entrada na idade, “ passava pelas brasas”. Tantas vezes se sentiu incomodada com as chamadas, do estilo “António Francisco Simões, sala cinco” (aquilo era rápido, questão de segundos!), entre tremores e um ressonar “simpático”, a dado momento, talvez por estar a meio de um sonho bonito, deu um salto na cadeira e soltou um sonoro desabafo:
-“Ai credo, porra que me assustei”!
Nessa altura estava eu preso à leitura das últimas sobre o “meu” Benfica, depois de ter mergulhado numa crónica do Miguel Esteves Cardoso.
-“Carlos Alberto Ramos, gabinete dois” – chegou a minha vez!
Eram três da tarde.

13 de junho de 2009

Albertina e Dionídio

Para sempre – 50 cartas de amor de todos os tempos”, é uma pequena enciclopédia com mensagens, frases, reflexões e imenso romantismo. O filósofo Jean Jacques Rousseau dizia que elas, as cartas, “começam sem saber o que se vai dizer, e terminam sem saber o que se disse". Álvaro de Campos, foi mais longe e deixou para a posteridade outra frase célebre: “todas as cartas de amor são ridículas…”!
O livro reúne textos de várias personalidades, de Beethoven a Chopin, de Franz Kafka a Fernando Pessoa. Os homens não diferem muito nas questões do coração quando o descobrem apaixonado e, por vezes, retratam o sentimento de forma tão sublime quanto pueril…
Para lá das cartas trocadas pelos amantes, há estórias (de amor) cujos relatos nem sempre têm um final feliz: “Tristão e Isolda”, de autor desconhecido do século XII (?), ou “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, são disso exemplo. Felizmente, tal não aconteceu, em 1945, ao casal Albertina e Dionídio, residentes em Meda de Mouros, aqui bem perto.
A força da paixão dos jovens amantes levou de vencida as contrariedades ao muito bem querer com que enfeitaram os sonhos, como se conta ao correr da pena, surripiado o relato do livro “Meda de Mouros e as suas gentes”, de Salvador da Costa e Luís Castanheira.
Albertina de Jesus e Dionídio Pereira namoriscavam-se e disso não guardavam segredo. O entusiasmo do primeiro amor, naquele tempo, era capaz de quase tudo, excepto contrariar interesses familiares.
Entretanto, Eduardo, viúvo, industrial de panificação, bastante mais velho, entendeu alargar os “apetites apaixonados” e declarou-os à Albertina e aos pais, que se mostraram “sensíveis” aos seus interesses…
- Nunca! – terá dito a conversada do Dionídio.
Porém, a insistência foi tanta que a pobre rapariga, por respeito (ou medo?) aos progenitores, acedeu. Ela e o Eduardo, o viúvo, à socapa, foram comprar o enxoval, mas não se rodearam de grandes cuidados e a notícia não tardou em chegar ao conhecimento do Dionídio que, “…perdido de amor, adoeceu, ficou acamado, recusou alimentar-se e dizia à mãe que morreria se não lhe fossem buscar a Albertina”! A senhora, perante a dor do seu amado filho, implorou aos pais da Albertina que tivessem em conta o amor de ambos, mas de nada valeram as lágrimas, que certamente terá enxugado com uma das pontas do xaile negro com que se cobria. Conta-se, na estória, que a senhora, “com o espírito amargurado, caminhou em clamor pela rua acima…”.
Perante tamanha “safadeza”, dois amigos do apaixonado Dionídio convenceram-no a raptar a amada, e logo engendraram um plano, que passava pela ida da Albertina à fonte, ao anoitecer, onde havia de explicar-se, olhos nos olhos, ao seu Dionídio. Nada consta sobre os pormenores do “rapto”, mas sabe-se que ela deixou a rodilha e o cântaro na fonte e refugiou-se na casa de um dos mentores do acto, o Augusto Lopes.
Luís Pereira, pai da Albertina, não tardou em conhecer a verdadeira “tragédia” e foi em busca da filha, na companhia de dois irmãos desta. Chegados ao refúgio, vem a Albertina e, com lágrimas a rolarem pela face, corajosamente enfrenta os familiares, afiançando-lhes que só se casaria com o Dionídio. Conformados, pai e irmãos, regressaram a casa….
Algum tempo depois, realizou-se o casamento da Albertina e do Dionídio… e foram felizes para sempre!
Do viúvo Eduardo nada mais se sabe. Possivelmente, carpiu mágoas junto à ponte “romana” do Cadoiceiro, em Meda de Mouros…
Agora, aos noventa anos, a memória da dona Albertina já não é o que era. Se fosse, a estória viria inteira!

6 de abril de 2009

"Pedra filosofal"

Ler e reler as vezes necessárias, na companhia das palavras do António Gedeão:
"...o amor é tão lícito quanto a vida, faz parte dela;a vida é imaginação,a imaginação recria sonhos, os sonhos comandam a vida...e assim se fecha o circulo de cada um e de todos os que colocam amor na paixão, a paixão no amor, o amor na amizade - há sempre um principio e um fim...
- Haverá?... "

3 de abril de 2009

Nas asas do sonho, a caminho do Piódão

Foto: Ana Rute Ribeiro





Lena”:
Há dias lembrei-te as férias que Agosto coloca no passaporte; este ano, a sugestão do nosso Governo, em nome de todas as crises, é bem clara: vai para fora… cá dentro!
Como o vai/vem das ondas do mar cansa alguns sentidos, e a “tua” serra tem as vertentes pouco íngremes, convidei-te, se bem te lembras, para uma visita ao Piódão, que fica logo ali, do outro lado da “minha”serra.
Se decidires aceitar o convite, ficam garantidos horizontes fascinantes, para lá de todos os montes, precipícios de meter medo e, bem lá no fundo, aldeias inteiras que nem imaginas com vida – mas ela existe, e as pessoas sobrevivem às custas daquilo que a terra dá e pouco mais…
Aconselhava o percurso mais curto; se vieres desses lados, de cima, entras em Coja, segues em frente, sobes para a Cerdeira, continuas a subir sempre… sempre… sempre, e logo vês uma placa: Piódão, para “este lado”, para a esquerda.
Aconselhava, disse, mas desaconselho, porque a estrada está um horror, tens de levar o carro a passo de caracol (o que também não é mau, sempre vês melhor a paisagem, e não arriscas nenhum susto se, em sentido contrário, aparecer pela frente outra viatura).
Mesmo assim, depois deste alerta (a Câmara Municipal de Arganil por certo desconhece a situação em que se encontram os buracos, por isso “sobra” pouca estrada…) se queres, aventura-te.


Se vieres com sede de água fresca, a meio da viagem tens a fonte do “Pião”; pára, da mão fazes concha, e bebes até doer a garganta, porque a água chega gelada.
Com a sensibilidade à flor da pele, já deste como boa a minha sugestão, e ainda não chegaste ao alto do Piódão, falta pouco…
De volta à gincana entre os buracos, não te apresses, … um pouco mais e… parece que te deu uma “coisa”: num segundo ficas com o olhar preso naquele amontoado de casas escuras, muito juntinhas – parecem uma só, com muitas dependências!
Stop!!!
Então, não dizia? Ficaste sem palavras perante o panorama incomensurável que vais guardar para todo o sempre no arquivo da memória!
Antes de desceres (a estrada continua ruim, e lá mais abaixo pior ainda por causa de algumas obras - cuida-te!) deves perfilar-te perante a lembrança dos passos de Miguel Torga, que por ali andou e aí se “despediu de Portugal”, “com o protesto do corpo doente pelos safanões tormentosos da longa caminhada…”. A “pedra bruta”, com a frase completa está mesmo aí, à tua frente, depois daquelas urzes, vês?
Continua a viagem devagar; se decidires pernoitar, faz a reserva na pousada que fica à tua direita – dizem que o serviço é excelente, nada me diz que o não seja; garanto, isso sim, o silêncio dos montes!
Finalmente, o largo da Igreja! Vê como o monumento tem o branco de todas as purezas, como o gostar de quem gosta do que é puro, como o ar que respiras na “minha” serra!
A partir daqui, não te conduzo os passos, mas vai por mim dar uma palavrinha ao senhor Lourenço, que tem uma venda com o seu nome. Mas só uma palavrinha; se for com a tua cara (é que vai mesmo, sendo tu como és…) não te larga com estórias – mais de mil! - que diz ter escritas em setenta agendas! Já agora, dá um salto ao “Solar dos Pachecos” e prova um dos deliciosos licores que tens à disposição, mas aquilo trepa, se abusares, já sabes...
No regresso, sugiro outra estrada com melhor piso, em direcção a Vide. É mais longe, mas compensa.
A meio caminho, encontras Chãs d’ Égua. Vai com tempo para ficares largos minutos na descoberta de vestígios de Arte Rupestre. E há paisagens de sonho, trabalhadas pelo Homem, casas, pontes, uma delas suspensa, única. Tudo parece arrumado num tempo que se mantém igual, à excepção das estradas e caminhos por onde se chega mais rápido – estradas e caminhos que a população usou para fugir das leiras, das encostas, dos animais que parece nunca terem existido, e das pedras, das pedras com as quais se construíram casas…cobertas de pedras.
A aldeia é linda para quem continua na viagem com a sensibilidade à flor da pele.
Para voltares a casa basta seguires as “placas”, mas se trouxeres o GPS, nem delas precisas!

Convenci-te com a ideia?
Um abraço, que vai daqui até aí.

22 de março de 2009

A “crise” de agora e “A arte de Furtar” (Séc. XVII)



O programa Prós e Contras da RTP obriga a um manancial de excelentes raciocínios. Quando o tema vai de encontro às minhas preocupações, fico atento do princípio ao fim.
Como responder à crise? – foi a questão em debate segunda feira passada, dia 9.
Os convidados, todos eles especialistas nas matérias associadas, opinaram, mas dali não saiu, a meu ver, nenhuma ideia brilhante, precisa e concisa, mágica até, capaz de solucionar o problema que toca a todos….a todos, virgula, porque a crise não é como o sol quando nasce!
A crise – sejamos justos – é só para alguns, depende! Melhor: cada um tem a sua própria crise, que pode ir da falta de dinheiro à ausência de perspectivas de emprego; sobre outras crises, tão díspares entre si, durante o programa, nenhuma delas mereceu honras de conversa.
Se ficarmos presos às grandes questões da tesouraria, La Palice diria que a crise só atinge…quem tinha milhões e passou a contar tostões!
No debate foi dito que há dificuldades, sim senhor, mas não ”… passa disso”, tudo se há-de compor a seu tempo – era um optimista a dizer “coisas”.
Veio outro especialista poetizar a felicidade merecida com a ideia de que, por essa via, todas as soluções estão ao alcance das nossas mãos, mais coisa menos coisa – era um sonhador a tirar a água do capote, na eventual falta de conhecimentos contabilísticos.
Animado, o programa lá foi por minutos bem contados a caminho do fim…
O mundo está de pernas para o ar, sem dúvida, mas não será o tempo de agora que lhe regista o passamento, apesar de todas as crises – nem o Bandarra o previu nas suas profecias! Portanto, a vida continua, com altos e baixos, como as marés…
Será “pecado” badalar a crise e, mesmo assim, encher os estádios de futebol?
O “nosso” Tony Carreira lotou por duas vezes o Pavilhão Atlântico – que se passa com os pecados dos seus leais seguidores?
Fico-me pelos exemplos de” Gente Feliz com Lágrimas” (perdoe-se a analogia com a obra de João de Melo) porque das duas uma: ou estes milhares de portugueses, amantes da bola e das cantigas do Tony desconhecem a realidade do País e do resto do mundo, ou então são mesmo uns sortudos e não há crise que lhes chegue, por mais desemprego que possa ser contabilizado pelos sindicatos, despedimentos, etc., etc.
Ainda a crise.
Veio parar-me às mãos uma edição gráfica da Gulbenkian, onde se podem ler alguns textos escritos no Século XVII. Um deles, sem nome de autor, intitula-se a “Arte de Furtar”. Ficam os rótulos que encimam alguns capítulos do texto panfletário (?), para merecimento da atenção do leitor:
Como para furtar há arte, que é ciência verdadeira”; “Como a arte de furtar é muito nobre”; “Como os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões”; “Como se furta a título de benefício”, etc.
“… Assim se prova que há arte de furtar; e que esta seja ciência verdadeira é muito mais fácil de provar, ainda que não tenha escola pública, nem doutores graduados que a ensinem em universidade, como têm as outras ciências...” – anotou o escrevinhador, ilustre desconhecido.
Como se fala de crises, bancos sem dinheiro, paraísos fiscais e outras negociatas, o livrinho… nem de propósito, parece ter saído agora do prelo.