| Constantino Cara-Linda, “cantigas” ou “cuco”, dependia de quem o interpelava, foi moço do Freixial, lá para as bandas de Vila Franca de Xira, e inspirou Alves Redol, de quem foi vizinho e amigo. |
25 de setembro de 2007
Aquilino Ribeiro e Alves Redol - os “novos” escritores
10 de setembro de 2007
Quanto mais tarde, melhor
(Recupero a morte do meu canário, em memória do grande tenor Pavarotti)
A saudade é um “sentimento” semelhante ao amor, paixão, ódio… desprezo?
Segundo uma “ordem de grandeza”, onde deverá ficar colocada?
E a saudade, enfim, também é sinónimo de nostalgia?
Uma tarde destas, numa roda de amigos, ocupámo-nos com o tema de forma assaz calorosa, dado que, cada um de nós, tem da saudade opinião semelhante, mas díspar no conteúdo, segundo a sensibilidade, o que me parece perfeitamente normal.
Leio no dicionário que tenho à mão: saudade - sentimento melancólico causado pela ausência ou pelo desaparecimento de pessoas ou coisas a que se estava afectivamente muito ligado, pelo afastamento de um lugar ou de uma época, ou pela privação de experiências agradáveis vividas anteriormente; nostalgia - sentimento de tristeza motivado por profunda saudade, especialmente de quem se sente estranho, longe da pátria ou do seu lar.
Fica claro que a saudade e a nostalgia andam de mãos dadas e fazem parte das emoções fortes de todos os humanos.
Segundo a “Porto Editora”, é um sentimento e não se fala mais nisso – cada um terá de a colocar a jeito na lista das suas preferências, segundo o “grau de qualidade”.
A nossa discussão teve “picos de audiência”, bem perto da hora do jantar; o Rui, entre o silêncio e o meio sorriso, sugeriu a leitura de “Ignorância”, do escritor checo Milan Kundera , que, a propósito da nostalgia e da tristeza, escreve: “…Para esta noção fundamental, a maior parte dos europeus pode utilizar uma palavra de origem grega (nostalgia) e, além disso, outras palavras com raízes na sua língua nacional: añoranza, dizem os Espanhóis; saudade, dizem os portugueses. Em cada língua, estas palavras possuem um matiz semântico diferente…”.
Ora, de longe, um escritor de prestígio como é Kundera, aproxima-se com realismo do “fado português” (com toda a carga poética que lhe queiramos transmitir) e da palavra saudade que, segundo alguns tradutores britânicos, está classificada em sétimo lugar na tabela das mais difíceis de traduzir! Temos outra com as mesmas características?
Para os nosso irmãos de Cabo Verde, ficou sodade ou sodadi, tal a influência linguística, e é assim, com sodade, que os milhares de emigrantes cabo-verdianos sentem a ausência, tal como nós, da Pátria, da família, dos amigos, dos cheiros e sabores, da paisagem – de tudo que fica na memória, até dos sonhos!
Saudade e nostalgia podem associar-se à efeméride que, por qualquer razão, deixou marca na nossa sensibilidade. Escolho a “minha”: 14 de Setembro de 2006, meia tarde!
Outro tanto, se recuar uns dias para recordar a morte de um belo canário (1), cantor e sedutor como todos os canários - acontecimento comezinho, dirão…
Um dia, pela manhã, encontrei-o “adormecido” a um canto do “palacete de uma assoalhada”, onde havia instalado um trapézio se exercitar.
Fiquei triste - estou triste com o silêncio eterno do meu “amigo”; com alguma pompa, deixei-o aconchegado em campa rasa, debaixo dos “Kivis”, espalhei pétalas de rosa, e elevei a “oração”, que se justificava no momento, a todos os deuses do Olimpo, numa tentativa de marcar na lista de espera novo encontro, de preferência ao som de belos trinados, mas quanto mais tarde, melhor, porque, por ora, continuo a escutar os solos do “Bocelli” – um belo canário, cantor e sedutor como todos os canários.
Quanto à saudade, bem…a saudade – o “tenor” faz parte das lembranças das coisas mortas da minha saudade, por ter sido a única “coisa” viva da minha nostalgia.
(1)
Pela qualidade do trinar, tinha o cognome de “Pavarotti”.
Esta manhã, soube pela TSF que o eterno Luciano Pavarotti tinha morrido.”Estranha” coincidência.
Membros da minha família dos afectos, conhecedores do meu apreço pelo maior “tenor do mundo”, associaram-se ao meu pesar.
Respigo a mensagem da Lena:
Morreu o Pavarotti.
O segundo.
Morreu numa tentativa frustrada de ultrapassar o seu cantor.
Difícil não sentir também mágoa.
(Os vínculos fazem tanta diferença!)
Viva Pavarotti! Viva a música!
31 de agosto de 2007
A emoção de ter inveja
...
Alguns dos meus amigos estão de férias e a minha inveja é proporcional à qualidade imaginária das ditas, isto é: se o destino foi a Figueira, vá que não vá; Algarve, eriçam-se os cabelos, se foram de abalada até Punta Cana e arredores, começo a ficar vermelho, mas quando me chegam notícias da velha Europa, do tipo: “olá, por aqui está tudo bem, estou a jantar em Varsóvia (…), a passear por Riga (capital da Letónia, imaginem!) …”etc e tal, chispo labaredas!
A inveja é um tipo de sentimento interessante, estou de acordo com Rui Zink, escritor de mérito - que aprecio por certa linguagem desabrida - porque quando existe, a inveja, é sinal de que ambicionamos o mesmo que o parceiro do lado: emprego “fixe” e bem remunerado, talvez um carrinho com motor, mais actual, mesmo uns dias de férias em paragens de puro exotismo panfletário, por exemplo….
Diz o escritor: “…Calar uma emoção tão salutar como a inveja, que é o desejo de estar melhor (e não necessariamente o desejo de o outro estar pior), leva a quê? Ao sufoco, à castração emocional…” – uff, nem mais!
A partir deste “elogio”, alguém se atreve a condenar uma das minhas invejas, por mais pequenina que seja?
Haverá outras “invejas” que não são próprias de gente de bem, mas enfim...
Ora, a minha inveja, perfeitamente assumida, não é incomodativa, apesar de tudo, e como não faço uso dela, fico-me pelas raivinhas, igualmente invejosas e assumidas, sobre as viagens, passeios e visitas turísticas dos meus amigos.
Bem gostaria de outros horizontes “nas minhas férias” que não estes, mas como estão longe do alcance do meu mealheiro, fiquei-me pela visita à rotunda da “Iral”, vi ao pormenor a escultura do Luís Queimadela, que tem feito levantar o som cavo das tubas, desavindas com a estética do belo, mas isso não é importante - como posso apreciar música clássica, se lá na aldeia, quando era miúdo, só ouvia a banda filarmónica?; para bom entendedor… – “descobri alguns recantos escondidos” do parque do Mandanelho, passei um excelente fim de tarde nas Caldas de S. Paulo, na companhia de amigos, voltei á Bobadela, enfim , andei por aí...
A propósito de música erudita: apesar de tudo, fui habituando o ouvido, quando era adolescente, e hoje sou mediano consumidor, graças ao tempo de África, sem televisão mas com rádio – novelas e fadinhos da Maria Pereira nos programas publicitários da Robbialac! E “sofri as consequências” do festival de Woodstock, apaixonei-me pela música dos Beatles, Shadows Amália e outra gente famosa do Show Business internacional; gostei do Conjunto 1111, Quinteto Académico, Tony de Matos, Simone de Oliveira, e outros artistas da casa - e fui a tempo de ver “nascer” o Marco Paulo para consumo interno…
Bom, falava de férias e da inveja que me corrói as entranhas pelo gozo com que os meus amigos ostentam o tom moreno trazido da praia, que para mim é uma chatice: areia em demasia, água salgada, ondas revoltas, sol, muito sol… calor! Praia de jeito é a que tem esplanadas, mesas e cadeiras confortáveis, cervejinhas bem frescas, e, já agora, uns camarões grelhados para desenjoar da bebida; se houver mar calmo e o reflexo da lua nas águas vier acompanhado do romantismo de companhia agradável e gentil, tanto melhor……
Recordo que o ano passado, por esta altura, sofri da mesma maleita; dados os factos passados e presentes, acho que sou portador de um “vírus crónico” que não se dá nada bem com este tempo… de férias.
-“Hoje estou em Tallinn ( capital da Estónia)” e estou a adorar… – escreve a Graça, para me “irritar”, só pode.
Quando voltar, há-de contar tudo, tintim por tintim…
29 de agosto de 2007
Morreu o "Pavarotti"

(...)
E tenho roseiras, muitas roseiras, rosas lindas, com cheiro, que me lembram amores caídos ( sempre a rosa, de preferência vermelha, nos momentos mágicos... e outros como este, espiritual, etéreo, pk não?).
Hoje dei com o meu "Pavarotti" ( um belo canário, cantor e sedutor, como todos os canários esbeltos e.. cantores!) caído num canto da prisão que lhe servia de guarida - uma assoalhada com trapézio onde o tenor exercitava o físico. Fiquei triste, estou triste, sobretudo depois do funeral em campa rasa, debaixo dos "Kivis". Com "pompa" e em silêncio cobri a sepultura com... pétalas de rosa.
O "Pvarotti" era a lembrança mais próxima de um amor "morto" , faz agora um ano, de curta duração. Coincidência, não?
Comprado "a meias", sobrou do espólio do "divórcio" (?) como coisa viva - tudo o resto são coisas mortas, menos as lembranças.
Partilho o "desgosto" sem lágrimas. Entenda-o como uma metáfora, como espero que entenda e aceite outras que deixei:"paixão", "amor","dedicação"...
(...)
Existe, sei que existe pk "toco" com gestos delicados a sua alma quando a encontro, errante. E se “ela” sorri, sei que é sua – só pode ser a sua!
As suas “cartas” nunca me cansam; se são pequenas, “sabem a pouco”.Adoro cheiros e paladares, para que saiba: tenho África no “sangue” e fui, num tempo passado, o “branco mais preto” daquele sítio de nostalgias permanentes, como disse “seu” Venicius de Morais.
Cá para mim, Mia Couto ainda não se atreveu a dizer o mesmo para que não seja apelidado de “surripiador”.
Ah, e de José Mauro de Vasconcelos, conhece “Meu pé de laranja lima”? Nem sei pk recordei a obra, que nada tem a ver com o Antoine de Saint Exupéry – este sim, estamos de acordo, paixão mútua, e ainda bem, para que me reveja na sua sensibilidade; por favor, permita que a minha fique por perto…
Fraternalmente,
… Carlos
13 de agosto de 2007
Para recordar...

“Pianíssimo” no Ritual Bar – sucesso com a “prata da casa”
Sob a direcção do maestro Rui Marques, o Ritual Bar levou à cena um sarau pouco visto na cidade!
O espectáculo, concebido para ser apresentado em espaços de dimensões reduzidas, teve a participação de Paulo Ribeiro ( voz, guitarra portuguesa, viola), Catarina Pereira (voz, violino) e de Ricardo Marques ( flauta); a intervenção de Patrick Gonçalves (violino) completou o grupo de jovens e talentosos músicos oliveirenses.
O maestro da Tuna de Penalva e professor Rui Marques (direcção, voz, piano, viola), conseguiu prender, por completo, a atenção do público, que lotou aquele espaço, graças à apresentação de um reportório criteriosamente seleccionado.
De improviso, participaram, ainda, dois elementos do quarteto “Chiminu’s Band” e Tó Zé Amaro.
Simbolicamente, Miguel Torga, nas vésperas do aniversário do centenário do seu nascimento, foi alvo de singela homenagem através da leitura de dois poemas pelo professor Álvaro Assunção.
Na plateia, entre outros convidados, esteve presente a Vereadora da Cultura da Câmara Municipal.
9 de agosto de 2007
Contagem decrescente
“…gasto”, talvez - aceito que já não corro
atrás de uma bola
como o fazia quando tenha vinte anos,
ou “fora de moda” para as “miúdas” de trinta,
ou mesmo dos quarenta,
e mais não digo…
Os filósofos da bica e alguns “entendidos da matéria”, entre duas “imperiais”, especulam de forma brejeira (sem necessidade, digo eu…) sobre a idade de cada conviva, e não é de admirar um “puto de quarenta” dizer a outro, na mesma faixa etária, que está a ficar “velho”, ou já lá mora, quando ela, a velhice, se faz anunciar com uma simples e fugaz enxaqueca, por exemplo, ou se determinado “jovem” assume cansaço físico depois de uma noite de pândega. (Há indícios bem mais aborrecidos, e desses quero distância, nem os “enuncio”).
Depois, há sempre um ou outro, de conversa mais séria na aparência (rosto fechado, voz timbrada, palavras eruditas…), que afirma ser a velhice coisa natural! Um deles chegou a encadear uma ladainha, que começou na concepção da vida e terminou…na “terceira idade”.
Na verdade, a contagem decrescente pode ser contabilizada a partir do momento da fecundação, mas imaginar uma criança daí a uns bons e largos anos, no tempo do ocaso da sua existência, não é ideia que se tenha, sobretudo quando os mais pequenos nos brindam com gestos de inocência e/ou palavras de excelsa ternura, deduções lógicas e inteligentes na curiosidade – momentos de espanto e admiração que guardamos na caixinha das memórias como autênticas relíquias.
A Margarida contou-me que o infante Guilherme só come peixe se este lhe aparecer no prato, inteiro, da cabeça ao rabo; de resto recusa-se a ingerir qualquer posta de “peixe mutilado”, que é como quem diz, na sua imaginação, retalhado aos pedaços, grandes ou pequenos. Mas do que o Guilherme não gosta mesmo nada é de “morangos mortos”! – nem mais nem menos gelados ou iogurtes onde apareçam bocadinhos daquele fruto.
Uma vez, um dos meus filhos, o Carlo, resolveu semear um caroço de laranja num dos vasos com plantas, que ornamentavam a entrada do prédio onde habitávamos; a sua maior preocupação era, no futuro, o crescimento da árvore e os frutos que haviam de nascer - certamente os vizinhos iriam “roubar as suas laranjas” , e isso não admitia!...
Enfim, “estórias” que Fernando Pessoa por certo quis retratar de forma sublime quando escreveu que o “melhor do mundo são as crianças”!
“Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças…”!
Este “devaneio”, não tem nada a ver com o tema da croniqueta – ou terá? Adiante.
Estou em acreditar, por completo, em algumas das teorias sobre a velhice, mas a Catarina, há pouco, “baralhou-me” com o que aprendeu na Universidade.
Simples: diz-se que uma pessoa é idosa (velha…) a partir dos sessenta e cinco, e muito idosa (demasiado velha…) depois dos oitenta! O meu dicionário, porém, é mais pragmático: velho, significa muito avançado em idade, antigo, que já não está em uso; fora de moda; antiquado; muito usado, gasto; homem de idade avançada, ancião. Sobre a pessoa idosa: que tem bastante idade; velho; senil!
Senil?!
Uff…tento dar a volta ao texto e “localizar-me” nas definições de forma airosa, gentil e simpática!!!
Aqui para nós, não me revejo em nenhuma das características enunciadas; “gasto”, talvez - aceito que já não corro atrás de uma bola como o fazia quando tenha vinte anos, ou “fora de moda” para as “miúdas” de trinta, ou mesmo dos quarenta, e mais não digo…
Como se compreenderá, sou suspeito numa auto análise, assim, deste jeito, como quem se confessa ao prior da freguesia, mas espero que me dêem o benefício da dúvida, embora reconheça que, um dia destes, depois de estar horas à espera do médico de família, no Centro de Saúde - eu e mais umas vinte pessoas, com os seus achaques, algumas com idade inferior à minha, cansadas e desgastadas pelo trabalho árduo do campo – senti-me velho por dentro! Pensamento estranho porque sempre valorizei muito mais o “espírito” eternamente jovem (pensava eu!) do que o “invólucro” com que cubro os ossos.
Enfim, “isto” tinha de acontecer, mais dia, menos dia – só falta chegar a idade da reforma, mas ainda há imenso tempo para me dedicar à delícia de ver os netos crescerem no "dolce far niente".


