13 de agosto de 2007

Para recordar...



“Pianíssimo” no Ritual Bar – sucesso com a “prata da casa”

Sob a direcção do maestro Rui Marques, o Ritual Bar levou à cena um sarau pouco visto na cidade!

O espectáculo, concebido para ser apresentado em espaços de dimensões reduzidas, teve a participação de Paulo Ribeiro ( voz, guitarra portuguesa, viola), Catarina Pereira (voz, violino) e de Ricardo Marques ( flauta); a intervenção de Patrick Gonçalves (violino) completou o grupo de jovens e talentosos músicos oliveirenses.

O maestro da Tuna de Penalva e professor Rui Marques (direcção, voz, piano, viola), conseguiu prender, por completo, a atenção do público, que lotou aquele espaço, graças à apresentação de um reportório criteriosamente seleccionado.

De improviso, participaram, ainda, dois elementos do quarteto “Chiminu’s Band” e Tó Zé Amaro.

Simbolicamente, Miguel Torga, nas vésperas do aniversário do centenário do seu nascimento, foi alvo de singela homenagem através da leitura de dois poemas pelo professor Álvaro Assunção.

Na plateia, entre outros convidados, esteve presente a Vereadora da Cultura da Câmara Municipal.

9 de agosto de 2007

Contagem decrescente


“…gasto”, talvez - aceito que já não corro

atrás de uma bola

como o fazia quando tenha vinte anos,

ou “fora de moda” para as “miúdas” de trinta,

ou mesmo dos quarenta,

e mais não digo…


Os filósofos da bica e alguns “entendidos da matéria”, entre duas “imperiais”, especulam de forma brejeira (sem necessidade, digo eu…) sobre a idade de cada conviva, e não é de admirar um “puto de quarenta” dizer a outro, na mesma faixa etária, que está a ficar “velho”, ou já lá mora, quando ela, a velhice, se faz anunciar com uma simples e fugaz enxaqueca, por exemplo, ou se determinado “jovem” assume cansaço físico depois de uma noite de pândega. (Há indícios bem mais aborrecidos, e desses quero distância, nem os “enuncio”).

Depois, há sempre um ou outro, de conversa mais séria na aparência (rosto fechado, voz timbrada, palavras eruditas…), que afirma ser a velhice coisa natural! Um deles chegou a encadear uma ladainha, que começou na concepção da vida e terminou…na “terceira idade”.

Na verdade, a contagem decrescente pode ser contabilizada a partir do momento da fecundação, mas imaginar uma criança daí a uns bons e largos anos, no tempo do ocaso da sua existência, não é ideia que se tenha, sobretudo quando os mais pequenos nos brindam com gestos de inocência e/ou palavras de excelsa ternura, deduções lógicas e inteligentes na curiosidade – momentos de espanto e admiração que guardamos na caixinha das memórias como autênticas relíquias.

A Margarida contou-me que o infante Guilherme só come peixe se este lhe aparecer no prato, inteiro, da cabeça ao rabo; de resto recusa-se a ingerir qualquer posta de “peixe mutilado”, que é como quem diz, na sua imaginação, retalhado aos pedaços, grandes ou pequenos. Mas do que o Guilherme não gosta mesmo nada é de “morangos mortos”! – nem mais nem menos gelados ou iogurtes onde apareçam bocadinhos daquele fruto.

Uma vez, um dos meus filhos, o Carlo, resolveu semear um caroço de laranja num dos vasos com plantas, que ornamentavam a entrada do prédio onde habitávamos; a sua maior preocupação era, no futuro, o crescimento da árvore e os frutos que haviam de nascer - certamente os vizinhos iriam “roubar as suas laranjas” , e isso não admitia!...

Enfim, “estórias” que Fernando Pessoa por certo quis retratar de forma sublime quando escreveu que o “melhor do mundo são as crianças”!

“Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças…”!

Este “devaneio”, não tem nada a ver com o tema da croniqueta – ou terá? Adiante.

Estou em acreditar, por completo, em algumas das teorias sobre a velhice, mas a Catarina, há pouco, “baralhou-me” com o que aprendeu na Universidade.

Simples: diz-se que uma pessoa é idosa (velha…) a partir dos sessenta e cinco, e muito idosa (demasiado velha…) depois dos oitenta! O meu dicionário, porém, é mais pragmático: velho, significa muito avançado em idade, antigo, que já não está em uso; fora de moda; antiquado; muito usado, gasto; homem de idade avançada, ancião. Sobre a pessoa idosa: que tem bastante idade; velho; senil!

Senil?!

Uff…tento dar a volta ao texto e “localizar-me” nas definições de forma airosa, gentil e simpática!!!

Aqui para nós, não me revejo em nenhuma das características enunciadas; “gasto”, talvez - aceito que já não corro atrás de uma bola como o fazia quando tenha vinte anos, ou “fora de moda” para as “miúdas de trinta, ou mesmo dos quarenta, e mais não digo…

Como se compreenderá, sou suspeito numa auto análise, assim, deste jeito, como quem se confessa ao prior da freguesia, mas espero que me dêem o benefício da dúvida, embora reconheça que, um dia destes, depois de estar horas à espera do médico de família, no Centro de Saúde - eu e mais umas vinte pessoas, com os seus achaques, algumas com idade inferior à minha, cansadas e desgastadas pelo trabalho árduo do campo – senti-me velho por dentro! Pensamento estranho porque sempre valorizei muito mais o “espírito” eternamente jovem (pensava eu!) do que o “invólucro” com que cubro os ossos.

Enfim, “isto” tinha de acontecer, mais dia, menos dia – só falta chegar a idade da reforma, mas ainda há imenso tempo para me dedicar à delícia de ver os netos crescerem no "dolce far niente".

7 de agosto de 2007

22 de julho de 2007

Ditos e (inter) ditos

A minha cidade tem muitas noites sossegadas – demasiado sossegadas - como hoje, recolhe-se cedo, mas aqui, no meu "universo", de tecto negro e paredes claras, onde repousam quadros do Wil de Wildt, Frenk Steffens e Rui Monteiro, iluminados por luz branca e directa, o som que me chega aos ouvidos vem do dedilhar das cordas das violas.

São dois os artistas, dois os instrumentos: uma Fender e uma Ovation que se completam como amantes apaixonados; à suavidade das cordas de nylon sobrepõe-se o timbre do aço no solo de peças musicais, tão clássicas quanto a minha mente consegue catalogar no tempo: "Guitar Tango", "Apache", "The Savage"... e mais e mais!!!

Os " Shadows" foram e são o meu grupo musical de eleição, e deles guardo "quase tudo", desde os primórdios dos seus verdes anos à década de oitenta - outra época de ouro nos arranjos de "Themes & Dreams", por exemplo.

Só o Hank Marvin poderia fazer, agora, com que me sentisse jovial no sossego do meu mundo e num tempo "quase perfeito"!

...O Sérgio e o "Zé" Augusto, às vezes, têm destas memórias, entre dois whisky's.

A Isabel trouxe uma amiga, escolheram uma mesa de canto; pediram uma cerveja e um cocktail. O taberneiro sugeriu a marca da moda, servida no copo característico, e sobre as "misturas" falou das suas invenções. A amiga da Isabel preferia outro composto: vinho tinto aquecido, rodela de laranja, um pouco de canela e uma pitada de cravinho - de fácil preparo, acrescentou.

- Intragável - pensei.

Vieram as bebidas e a Isabel, sorridente e bem disposta, sugeriu que provasse a mistela, o que fiz por simpatia.

Para o meu palato, simplesmente horrível!...

Não dei parte de fraco, corri à copa e bebi um enorme copo de água!

A noite ia alta.

Depois de saborear com deleite a beberagem, a amiga da Isabel pagou a conta e saiu.

A Isabel ficou no mesmo lugar, mas à segunda cerveja, decidiu-se pelo balcão e por ali ficámos em amena cavaqueira

Procurei ser bom ouvinte de estórias intermináveis, sem comentários: era a noite de "todos" os desabafos!

Veio outra cerveja.

Falámos de terras no "fim do mundo", de viagens feitas, de sítios que "adorávamos conhecer", de amores e desamores...

A Isabel deixou de olhar de frente, e quando voltou a fazê-lo, trazia os olhos molhados, não sorria, como sempre faz...

Concluímos que o momento era o menos próprio para recordações que se desejam esquecidas. Para sempre!

Ponto final.

..... E fiquei sem saber o nome do cocktail que, pelos vistos, é típico de países frios, como a Holanda - é o que afiança a Rita, emigrante a meio tempo no país das túlipas

- Agora percebo porque é que os holandeses gostam tanto de Portugal – diz a Rita cansada de tanta água!

Para estas duas amigas, o " sol português não as deixa" voltar às origens!

O peso dos anos tem a importância e o valor do trajecto que percorremos.
O carrego pode ser pesado se a vida foi madrasta, ou leve, se a fortuna teve sorrisos de boa vizinhança. Em qualquer dos casos, a memória funciona como arquivo de todas as coisas, boas e más.

Por vezes, de forma voluntária, recordamos outros tempos, perto ou longe do momento presente, ou é o acaso que nos faz lembrar o passado.
Casualmente, hoje, encontrei na mesa de um bar um jornalzinho que não folheava desde os tempos em que ia à Missa, aos domingos, já lá vão uns anitos. Chama-se O AMIGO DO POVO, é editado pela Diocese de Coimbra, e tem de vida mais de noventa anos!
São duas folhas "A4", de conteúdo evangelizador, naturalmente, e é informativo quanto baste.
Tinha (e tem!) uma secção que lia com enlevo: "Ao calor da fogueira" - diálogos simples e moralistas, como é o caso da edição 4280.
De tanto querer saber (e nada sei!...) tornei-me agnóstico, mas este jornalzinho transportou-me à infância na minha aldeia, ao padre Januário, às brincadeiras do pião e aos futebois no largo da escola, às reguadas da professora Georgina e aos seus preciosos ensinamentos, à primeira namoradinha, ao Peixoto (a quem sovei de raiva, certa tarde, por causa da Teresa, que era miúda de alguma beleza e sorriso brejeiro), aos passarinhos presos nas armadilhas, aos mergulhos no rio, ao Américo Cigarrada (que saudade dos peixes que agarrava à mão, no rio Alva, só para me satisfazer os desejos!...), à avó Virgínia, à mãe Natália...
O AMIGO DO POVO era o meu jornal de domingo, que lia durante a semana!

Um pouco da "minha " cidade

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8 de julho de 2007

Seis “pompons” na beira da estrada

"Encontros imediatos"

Ouvi na rádio que a Câmara Municipal de Arouca, no distrito de Aveiro, está a projectar no terreno uma iniciativa fora do vulgar, tendo em vista dinamizar o turismo rural

Recorro à página oficial da “ANCRA” - Associação Nacional dos Criadores da Raça Arouquesa” e fico a saber que “…as vacas adultas, de manhã são levadas para o monte onde passam todo o dia e só regressam já de noite. Os vitelos ficam na "corte". Mamam antes da vaca sair, e, quando ela regressa do monte…” .

Portanto, a estória que ouvi de fugida, tem a ver com esta espécie de gado bovino que se alimenta nos baldios da região, mas o que prendeu a minha atenção, foi o pormenor da ideia: qualquer um de nós pode adquirir um animal desta raça (ou mais!), que terá um chip incorporado no dorso de modo a ser localizado com facilidade enquanto vagueia pelos montes. A entidade responsável pelos cuidados dos animais, sedeada no local, a qualquer hora do dia, pode ser contactada pelo proprietário e este, se desejar, pode visitar o seu animal no habitat natural. O dono também pode negociar a sua vaca com quem entender, mediante certas regras, etc, etc – ouvir as notícias na rádio, a meio, não é o mesmo que saber das ditas pelo jornal, porque, pela leitura, ficamos com a informação por inteiro, podemos voltar a trás, reler…

Interessante, na minha opinião, a iniciativa, quase cópia do que o Jardim Zoológico pratica quando nos decidimos “apadrinhar” determinado animal, contribuindo para o seu sustento; neste caso, a vaca pode ser negociada e é bem possível que apareçam “investidores” interessados no lucro…

Por falar em “apadrinhar” animais (e agora começa outra estória, inspirada na iniciativa da Câmara de Arouca), há uns tempos atrás dei de caras com duas raposas, ainda jovens, penso, que se cruzaram comigo quando ia para casa, noite alta. Apesar de conduzir devagar, diminui ainda mais a velocidade do meu carro e fiquei a vê-las, por segundos, numa “luta” sem intenções perigosas, digo eu. Terminada a brincadeira, foram à sua vida, atravessando a estrada. A partir desse dia, pelo menos uma está “á minha espera”, e logo que a luz dos faróis a ilumina, levanta-se, olha para “mim”, e passa para o outro lado, perdendo-se no mato que, por ali, é rasteiro.

Acredito que os progenitores andem por perto, mas como as “nossas relações são pacíficas”, não creio que “aconselhem” os filhotes a mudarem de pouso. O mesmo “dirão” os esquilos que de quando em vez vejo saltitar nos carvalhos, durante o dia, ou os “Saca Rabos” (espécie de gato bravo) quando procuram caça, coelhos ou javalis desgarrados. De certa forma, são todos meus “afilhados”!

Quantos às perdizes, nem vê-las!

Como posso escolher um dos dois caminhos que tenho à disposição para ir e vir, alterno. Um deles, de curvas bem contadas, talvez umas noventa! Se a paciência é pouca, vou pelo outro - sempre é mais a direito por entre os pinheiros de porte alto.

É neste percurso menos sinuoso que tenho, quase sempre, os meus encontros imediatos, talvez por bordejar, em certa medida o “meu rio” (pobre dele, quase morto). Como os meus “amigos” bichos matam a sede nas águas do Alva, andam por lá, fazem os ninhos nas árvores, ocupam as tocas de uma assoalhada e convivem entre si segundo as regras da mãe Natureza.

Surpresa maior: há dois dias, depois de (mais) uma curva, reparei que estavam uns “pompons” enroscadinhos na berma da estrada. Parei, as bolinhas de pelo ganharam vida e, meio assustadas esconderam-se na valeta pouco profunda. Contei quatro cachorrinhos matizados, entre o branco e o preto, alguns com tons de cinzento no pelo.

No dia seguinte, à hora do almoço, levei-lhes meia dúzia de conchas de sopa – daquela que só a mãe Natália sabe fazer, espessa e saborosa, de fazer crescer água na boca só de olhar!

Então, decidi: como não posso ter uma vaca de raça “Arouquesa” mesmo minha, e como não sou “padrinho” de nenhum animal em cativeiro, no Jardim Zoológico”, assumi a responsabilidade de alimentar, pelo menos uma vez por dia, os “meus pompons” - que afinal são seis e não quatro! - mais a mãe, baixota e feia de tão magra, mas que “sorri” abanando o rabo sempre que me vê chegar; fica especada a olhar os filhotes e é incapaz de se servir um pouco que seja da ração que despejo em recipiente próprio – sirvo-a à parte, “agradece” com o mesmo “sorriso”, e quando volto à estrada, pelo canto do olho, vejo que continua de rabito no ar, como se estivesse a dizer adeus.

22 de junho de 2007

Como se fossem dois adolescentes

A meio da tarde, no bar, havia mesas livres; o casal entrou, escolheu uma delas, olharam os dois em redor e, já instalados, pediram que lhe servisse duas bebidas.

Os olhares perdiam-se pelas paredes, onde estavam exposta pinturas do Wild de Wildt, Rui Monteiro e Alberto Péssimo; a. música ambiente aconchegava o sossego do momento e o tom das suas vozes era suave.

Tocou um telemóvel, a senhora atendeu, levantou apenas um pouco a voz e falou em francês, expedita, de forma alegre. Repetiu por três vezes merci, e continuou, veloz, na articulação das palavras – sinal de que, para si, a língua de Nicolas Sarkozy lhe era familiar…

O cavalheiro, entretanto, inquire sobre o espaço: é público, não? Respondo afirmativamente. Sabe, acrescenta, como tem um estilo completamente diferente do habitual, a minha esposa deduziu que fosse um “clube privado”. Em traços largos, explico que o comércio das bebidas era um pretexto para algumas actividades culturais - a exposição que tinham à sua frente era um exemplo disso mesmo.

Terminada a conversa, foi a vez da senhora parabenizar os autores das obras expostas e quem tivera o arrojo de colocar de pé o espaço como se apresenta.

Agradeci a generosidade do que foi dito.

Pergunto se estão de férias por estas paragens. Responde a senhora: de férias já estamos há imenso tempo, somos reformados, e viemos de Leiria passar uns dias a esta região, que desconhecíamos em absoluto, pernoitamos na Pousada do Convento do Desagravo e durante o dia damos uns passeios por aí. É muito lindo, tudo aqui à volta, a serra, tudo!

O encantamento do olhar, transmitia alegria, satisfação, prazer, felicidade na forma mais pura – que sei eu desse sublime sentimento?

Sempre de sorriso nos lábios, desenhados num rosto de enorme beleza, disse ao que vieram em concreto, desvendou o segredo, enquanto o marido, talvez um pouco envergonhado, olhava terno e meigo a “jovem” e bonita esposa: faço hoje oitenta anos, e o meu marido presenteou-me com este magnífico passeio.

Oitenta?

Não, não imaginava aquela figura esbelta, meã na altura e aspecto prazenteiro com uma mão cheia de “viçosas primaveras”, muito próxima do centenário que, acrescentei, por certo irá comemorar…

Pedi licença por breves segundos, saí, fui à florista Clara, logo na esquina, comprei uma rosa (que não paguei, por que a Clara conhece de longe o meu “vício” por flores e partilha comigo a sensibilidade do belo, e volta não volta tem destas delicadezas…), e com o meu melhor sorriso ofereci-a à bonita senhora – apenas uma lembrança com que procurei honrar o seu aniversário e o amor do casal

…Fiquei com a sensação de que a rosa vermelha “ganhou vida própria” e um “rosto” – “um dos olhinhos sorriu, atirou-me uma piscadela” e eu fiquei a ver o casal, de mão dada, rua acima, como se fossem dois adolescentes apaixonados.