27.2.07

"Memórias" de Gabriel Garcia Márquez

Comprei as "Memórias das minhas putas tristes", escritas pelo Nobel da Literatura colombiano.
Diz o autor, sobre o avanço da idade no homem maduro, que "...as primeiras mudanças são tão lentas que mal se notam, e continuamos a ver-nos de dentro como sempre tínhamos sido, mas os outros vêem-nos por fora...".
Quem olha de "fora para dentro", de facto nem sempre se apercebe que o "interior" não é, necessariamente, o reflexo do "exterior"...
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Sugiro a leitura das cento e vinte páginas desta obra magnífica.
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21.2.07

Carnaval



















Segunda feira, por volta das 23 h.
Disse para quem estava:
- Este ano ainda não vi nenhum "mascarado".
- Eu já tentei tirar o "elástico" - desabafou alguém.
- Cá por mim não vou em "palhaçadas" - afirmou, categórico, depois do café, outro dos presentes.
De repente, todos os olhares se viraram para a porta da entrada - vinham "elas" com elas, de sorriso aberto.
Depois dos "bebícios", uma foto para a posteridade:
- Venha daí, junte-se a nós!
E lá fui eu, de sorriso malandro "afivelado"!

Aquela "loira"...

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(Fraterno abraço ao Fernando Lourenço e amigos )

Vento na "terra do nunca"

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Longe vão os tempos das grandes descobertas marítimas; bem andaram as majestades reais com os empenhos e engenhos guerreiros que se conhecem, a par de outros interesses religiosos e profanos.
Das riquezas de que se sabia, vieram cheios os porões das naus e caravelas; das outras (riquezas), a colheita justificou os martírios de marinheiros e soldados, Dominicanos, Jesuítas e outra gente de Deus. Mais bélicos, os galeões, ao sabor de ventos e correntes, faziam da força bruta a sua raça indomável, mas nem por isso tinham melhor sorte, e a sua altivez de contratorpedeiros de pouco lhes valia, perante as forças da Natureza, e iam ao fundo com a mesma desgraça dos seus congéneres cargueiros de bens e pessoas;
O panorama desses tempos, no arrojo do Homem, tem hossanas de poetas. É por via da escrita que conhecemos os feitos de glória com que se cobriam os viajantes nas suas lutas contra hábitos e costumes de outras origens - nas guerras com os gentios, "falavam" mais alto e mais forte as "vozes" das escopetas e fuzis do homem branco.Houvesse ou não ventos de feição, os navios sempre se fizeram ao largo.
O mar tem as suas marés, e as ondas, ainda que encapeladas, não eram obstáculo para quem se dispunha a entrar na História pela associação da inteligência, coragem, esperteza, e sabedoria empírica ou não. Os tempos mudaram, as pessoas também – só o mar e o vento continuam sendo mar e vento, proporcionando ao Homem as mesmas benesses de que nos continuamos a servir "gratuitamente"e em maior escala, porque estamos cada vez mais "espertos"e de inteligência refinada pelo conhecimento cientifico que espanta, tal a evolução das descobertas, como outrora…
Da água do mar, retira-se o sal e serve-se o líquido a contento das sementes que germinam na terra. Das marés, aproveita-se o vai e vem das águas para gerar energia. O vento é o ar em movimento que soprou as velas dos barcos de outros séculos e, agora, faz mover gigantescas hélices que, por sua vez, geram energia. Aos povos que têm a desdita de viver longe dos oceanos, fica-lhes reservada a felicidade de subir mais alto e olhar o mundo lá de cima, com o vento a enrolar-se mansamente à nossa volta, ou asfixiando-nos, como uma anaconda.
Infelizmente, a região do "meu" Concelho é quase plana; sem montes que mereçam a honra de montanhas, não temos altura nem estatura para tocar as nuvens, por isso, o vento que sopra sei lá de que banda, não traz a força suficiente para fazer rodar de forma constante aquelas três enormes pás que se vão desenhando um pouco pelas serras aqui à volta – do Açor à Estrela.
Ventos sem qualidade, pelo que li, é o que temos cá por baixo, nos arrabaldes, logo, a riqueza de ventos de feição não nos calhou em sorte – conclusão simples e sherlockiana. Sem a possibilidade de, pelo menos, um parque eólico que nos honre a estima, envaideça o ego e alimente o erário público, longe do mar e das marés, sem petróleo ou gás no subsolo (que se saiba!), só resta a barragem da mini - hídrica de Avô para nos tirar da pobreza franciscana, no que à energia eléctrica diz respeito… É pouco.
Perante factos, vou deixar de dizer aos amigos de longe que vivo na serra do Peter Pan e afiançar-lhe que moro na Terra do Nunca, onde o vento pouco ruge. O diabrete Capitão Gancho, esse continua, mauzinho, arrogante, inconveniente e …pirata! Quanto ao Sininho… plimmmmmm!

17.2.07

As mudanças...

... deste sítio - espécie de almofada onde repouso sentimentos - são obra da Ângela,
amiga de muitas horas
e refúgio dos meus desabafos.
Devo-lhe o estímulo sempre renovado
e a disponibilidade do tempo que "perde" por aqui,
entre um chá de frutos tropicais, acordes de viola e conversas nos dois sentidos.
Que continuemos assim, fraternos, por muitos anos e bons.

14.2.07

Hoje...


Abri as mãos, vieram "margaridas" que distribuo às senhoras de todas as idades que me honram com amizade fraterna;
para a Margarida, que tem nome de flor, uma rosa da cor dos seus intocáveis sentimentos. Fosse perto, e teriam outra matiz..
Eu, que pouco sei de mim, perdi a capicua que foi vermelha - agora ofereço "margaridas" ao café, sem segredos .

Falsa promessa



"Vai ter uma boa surpresa hoje. Talvez uma prenda ou um encontro inesperado"
- anunciava o horóscopo.

Mentiu!

6.2.07

Fernando Vale e Miguel Torga "de braço dado"


Foi necessário deslocar-me às instalações da Santa Casa da Misericórdia de Arganil, o que nunca fizera antes, apesar das inúmeras viagens que, em tempos, me proporcionaram conhecimento profundo da Vila e das pessoas – de algumas pessoas – com quem partilhei ensinamentos e experiências inesquecíveis. O tempo de espera para uma conversa com figura proeminente da Medicina foi suficiente para um pequeno passeio pelas instalações da Instituição; vi obra recente, alterações arquitectónicas que redimensionaram espaços, e até o busto do Dr. Fernando Vale mudou de sítio, embora se mantenha visível em local digno. Não fui adiante, porque a memória "disse" para ficar e olhar – olhei!
O tempo de meditação foi curto, mas a imagem daquela figura que conheci de perto e me honrou com amizade fraterna, acompanhou-me pelo resto da tarde.
À esquerda de quem entra no Hospital, continua exposto o consultório de outro ilustre cidadão, de seu nome Adolfo Rocha, médico dentista de outros tempos, de quem a História pouco diz, mas eleva às alturas do sublime quando acrescenta o pseudónimo de Miguel Torga. Outra pausa na viagem e deixei-me ficar, mirando com minúcia os objectos.
"Desfiz-me do consultório. Mil circunstâncias adversas conjugaram-se nesse sentido. E adeus meu velho reduto onde durante tantos anos lutei como homem, médico e poeta. Ofereci o material cirúrgico ao Hospital da Misericórdia (de Arganil) onde durante anos operei, e o mobiliário à Junta de Freguesia de S. Martinho" – escreveu Torga em Junho de 1992
Fernando Vale e Miguel Torga - ali, quase de "braço dado"…
Do que conheço da obra do Torga, partilho com a "minha verdade" a sua opinião sobre o Homem, que diz ser "…por desgraça, uma solidão: nascemos sós, vivemos sós e morremos sós"! Revejo-me nesta frase e numa outra onde retrata o beirão (que também sou, de peito aberto aos ventos que sopram da serra do Açor), como teimoso e cabeçudo!
De Fernando Vale recordo anos, (apesar de poucos - é sempre pouco o tempo que os Mestres nos concedem!), e momentos passados na sua casa de Coja, onde eu (e os outros…), de pé e à ordem, atentamente, aprendíamos os segredos da palavra perdida, e desenvolvíamos o espírito de modo a construirmos, cada um por si, o templo interior da tolerância e da fraternidade. Por vezes, na sala, a meio da conversa, se havia incertezas, o Mestre, delicadamente, pedia: "…por favor, naquela prateleira, não se importa de me trazer o livro (…)" – e a dúvida morria naquele instante!
Por ali, tudo parecia justo e perfeito, cada coisa no seu lugar, cada lugar para cada coisa, que tanto podia ser um livro, jornais, documentos - um autêntico acervo de "sabedoria com alma".Imaginei-me, vezes sem conta, sentadado na cadeira usada por Miguel Torga, Moura Pinto, Edmundo Pedro, Soares…
Lá fora, no pátio interior, a videira que Torga plantou em 1954, continuava viçosa…
O tempo de espera, nas instalações da Santa Casa da Misericórdia, chegara ao fim. Nunca como naquele dia, que me lembre, o atraso de um médico foi tão "abençoado"!
De regresso a casa, remexi nas coisas que guardo com estima, folheei e li opúsculos de Carlos Teixeira e Luís Vale, "perdi-me" com os desenhos do Alberto Péssimo e deliciei-me com a poesia de António Arnault. Como dizia o Mestre, citando Dostoievski, só a beleza salvará o mundo…
Depois, tive o atrevimento de me abalançar a esta croniqueta.